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Antes da urbe Campina Grande

publicado: 13/10/2026 09h44, última modificação: 13/10/2026 09h44
Surgimento da maior cidade do interior do estado da Paraíba está historicamente ligado à presença de populações indígenas na região
Dança dos Tarairiú - Albert Eckhout - Museu Nacional da Dinamarca (1).jpg

Obra A dança dos tapuias (outra denominação dos tarairiús), do artista holandês Albert Eckhout, produzida no século 17 | Imagens: Reprodução/Museu Nac. da Dinamarca

por Marcos Carvalho*

Antes de ser elevada à categoria de cidade, em 11 de outubro de 1864, Campina Grande já acumulava mais de 160 anos de ocupação portuguesa. Recuando ainda mais no tempo, os registros históricos e achados arqueológicos, apesar de escassos, atestam a presença dos povos indígenas que habitavam o território que, hoje, abriga a maior cidade do interior da Paraíba. Os povos tarairiús teriam sido, segundo pesquisadores, os habitantes mais antigos do lugar que se tem conhecimento.

“Cientificamente falando, o povo tarairiú viveu, de fato, nessa região que hoje nós chamamos de Campina Grande”, afirma o arqueólogo e professor da Universidade Estadual da Paraíba (UEPB), Juvandi Santos, com base em estudos feitos com materiais encontrados em escavações realizadas onde atualmente é o aterro sanitário da cidade. Foram catalogadas cerca de duas mil peças pelo Laboratório de Arqueologia e Paleontologia da UEPB (Labap), entre cerâmicas e materiais líticos, como pontas ou machados de pedra feitos para uso laboral ou ritualístico. Quando comparados com materiais encontrados em outros sítios arqueológicos nos quais se identificou a presença dos tarairiús, os resultados indicaram se tratar da mesma etnia.

O arqueólogo reconhece a escassez de informações mais precisas na cidade pelo elevado grau de urbanização. Boa parte das informações que se tem sobre esses povos vem de relatos e registros holandeses que, chefiados por Maurício de Nassau (1604–1679), trouxe uma comissão dentre os quais estava o artista visual Albert Eckhout (1610–1665), que retratou algumas cenas da etnia, como A dança dos tapuias, nome também dado aos tarairiús, e Índia tarairiú, que representa um dos hábitos pelos quais o grupo se tornou conhecido.

“É difícil você montar história desse povo. Primeiro, porque esse grupo praticava o chamado ‘endocanibalismo’. Eles comiam os parentes. Para o povo tarairiú, o melhor lugar para enterrar um filho é onde ele foi gerado. Por isso, nós não vamos encontrar ossos humanos, porque eles comiam seus entes falecidos em atividade ritualística”, explica Juvandi. As pinturas holandesas, no entanto, revelam que eram altos e aguerridos, e a historiografia de cronistas aponta que eram seminômades, praticantes da agricultura sem dispensar a possibilidade da caça e coleta.

Essas características provavelmente contribuíram para sua exterminação com a colonização portuguesa. Nesse processo, Campina Grande receberia, na sua origem, um outro povo menos resistente à dominação e de estatura mediana, que estaria ligado à etnia dos cariris. O professor Juvandi Santos pondera que essa denominação não faz referência a um único povo e registra que até agora não foi encontrado, no território campinense, nenhum sítio arqueológico desse povo, que ,ao contrário dos tarairiús, enterravam seus mortos em cavernas.

Os primeiros registros dos cariris na região do Agreste paraibano datam, segundo o presidente do Instituto Histórico e Geográfico de Campina Grande (IHCG), Vanderley de Brito, de 1668, após a expulsão dos holandeses do Nordeste brasileiro. O historiador conta que um grupo de indígenas da etnia cariri, os chamados “bultrins”, havia lutado a favor dos portugueses e recebeu terras para cultivar, sendo aldeado com um missionário oratoriano na região que atualmente compreende as cidades de São Sebastião da Lagoa de Roça até Campina Grande.

“Esses indígenas eram seminômades. Ocupavam uma região muito grande e montavam sua aldeia, exploravam a terra, plantavam, colhiam, depois faziam coivara, ou seja, tocavam fogo no que sobrava da colheita e iam para outro lugar para esperar a terra queimada se recompor e voltar a plantar”, explica Vanderley de Brito.

Com o tempo, o local foi se transformando em anteparo para pernoitar nas viagens entre a sede do governo do Sertão, o Arraial de Nossa Senhora do Bom Sucesso do Piancó (hoje, cidade de Pombal) e a capital da província. Nessas passagens, o capitão-mor dos sertões, Theodósio de Oliveira Lêdo, trouxe consigo um grupo de indígenas ariús, também chamados de “pegas”, da nação dos tarairiús, estabelecendo no local uma missão religiosa, e formando um só grupo, com a denominação de “cavalcantes”, em homenagem ao chefe indígena do lugar. “No momento em que Campina Grande deixa de ser uma aldeia de nativos no meio do caminho e se torna uma missão religiosa, passa a receber também benesses do governo de Portugal”, completa Vanderley de Brito.

A história da presença indígena no território campinense apresenta um novo capítulo com a extinção das missões imposta pela política do Marquês de Pombal (1699–1782), a partir de 1758. De acordo com o presidente do IHCG, os indígenas que viviam no local foram realocados para a Aldeia Monte-Mor, situada onde hoje é o município de Rio Tinto, permanecendo apenas os mestiços e mamelucos. Esses acontecimentos estão registrados em cartas régias das sesmarias e outros documentos burocráticos do Governo da Paraíba, bem como nos relatórios das missões religiosas.

Apesar do pouco reconhecimento da presença indígena na construção de Campina Grande, o historiador recorda de topônimos e hábitos de sua população, que de alguma maneira ainda sobrevivem ao apagamento histórico. “Bodocongó”, por exemplo, é um termo indígena que significa lugar das queimadas e faz referência a lugares devastados com fogo para se transformar em pastagem de gado. “O campinense até hoje é um caboclo, um indígena não só no seu fenótipo, mas em diversos costumes, como falar de cócoras e uma série de outros resquícios desses povos que ainda estão muito presentes no cotidiano. A gente pode considerar que o indígena ainda está muito vivo aqui, no povo de Campina Grande”.

Sítios pré-históricos

A presença de sítios arqueológicos em Campina Grande revela que a ocupação humana da região é muito anterior à chegada dos colonizadores portugueses. Entre os vestígios pré-históricos da Rainha da Borborema, destaca-se o Sítio do Estreito, inserido em um complexo arqueológico formado por quatro sítios, na região de Aloysio Campos. O conjunto reúne registros de arte rupestre avermelhados ou alaranjados, semelhantes a outras manifestações pré-históricas encontradas, por exemplo, no interior do estado do Piauí. O historiador Vanderley de Brito lembra, ainda, que, no bairro Catolé, havia uma região chamada de “Pedra Lavrada”, que fazia referência a inscrições gravadas em pedras.

As pesquisas arqueológicas na Paraíba vêm transformando o conhecimento sobre a ocupação indígena do estado. Escavações em diferentes regiões já identificaram dezenas de sítios arqueológicos e milhares de peças, como urnas funerárias, ossos humanos e fragmentos cerâmicos. Para o arqueólogo Juvandi Santos, essas descobertas têm contribuído para reescrever a história da Paraíba e da diversidade dos povos que integram seu território.

*Matéria publicada originalmente na edição impressa do dia 11 de outubro de 2026.