Há artistas que transformam cada som em cura e cada palavra em abraço. Renato Gama é desses. Musicoterapeuta de formação, compositor, escritor e diretor teatral, ele construiu uma trajetória que recusa os limites entre as linguagens artísticas. Ao lado do irmão, Ronaldo Gama, fundou o Centro Cultural Viela em Dia de Lua, na Vila Nhocuné, zona leste de São Paulo — território onde a cultura preta respira, resiste e ensina. Foi desse chão fértil que nasceu "Neguinha, sim!", canção que ganhou o mundo na voz de Izzy Gordon e, em 2023, desembarcou nas livrarias pelo selo Canoa, da Companhia das Letras. Semifinalista do Prêmio Jabuti e aprovado no PNLD Literário, o título ganhou desdobramentos que atravessam oceanos — "Neguinha, sim! Em Paris", "Em Dacar", "Em São Luís" e "Em Maceió" —, numa coleção que celebra a diáspora negra e a riqueza das culturas que nos formam.
Para Renato, sua formação como musicoterapeuta é a lente através da qual enxerga toda sua produção artística. "A Musicoterapia contribuiu muito com o meu olhar para a música para além do entreter, como um processo de promoção à saúde", explica. Durante sua formação, seu foco foram as infâncias e as pessoas idosas, e foi nesse percurso que percebeu a necessidade de "criar um espaço seguro para a criança desenvolver suas habilidades" e de que ela "se enxergar bela e acolhida". E complementa: "a literatura é uma grande ferramenta para alcançarmos".
O convite para transformar a canção em livro veio de forma inusitada. "O convite para a criação do livro veio de um show que fiz no aniversário de Osvaldo de Camargo, onde um amigo, Max, que trabalha na editora teve a ideia, isso na Biblioteca Municipal Mário de Andrade em São Paulo." Sobre o processo de transposição entre linguagens, Renato é categórico: "a transformação da canção para o livro só teve contribuições positivas, o livro ganhou mais 3 versos como: 'os meus olhos jabuticaba parecem que têm voz'".
A valorização dos traços negros — cabelo, nariz, boca, olhos — é o coração pulsante de "Neguinha, sim!". Para o autor, a escolha de partir do corpo não foi acidental. "Na maioria das vezes a violência racial nasce dessas características", afirma, "o que me traz a necessidade de valorizar e transformar em potência". A personagem protagonista é uma menina que vê em seu cabelo blackpower uma herança ancestral: "O meu cabelo é pixaim, meu black power fica assim, e quer saber? Eu sou muito, muito feliz".
A atuação de Renato na Vila Nhocuné revela um forte vínculo com o território. "Acredito que o território é fundamental para pautar as construções artísticas, é no território que criamos comunidade, que nos humanizamos", reflete. "Sou muito atravessado pelas questões periféricas, o meu quintal me dá condição de ler o mundo e é aí que desenvolvo minha arte."
Em canções como "Aquilombar" e "Comida de comer com a mão", a ancestralidade se faz presente. Renato entende os gestos simples como atos de resistência cotidiana: "É no cuidar, com uma violência secular que machucou muito da população negra, e ainda assim, propor rodas de samba para promover saúde, é algo revolucionário. É no feijão de quintal, no benzimento, no chá a construção cultural negra vem sendo preservada e difundida de forma corajosa e sensível."
Semifinalista do Prêmio Jabuti, o livro alcançou um patamar de visibilidade que transcende as prateleiras. "Ser finalista de um prêmio com repercussão nacional serviu de amplificador para o livro", celebra. "Hoje tenho relatos de crianças do Maranhão ao Rio Grande do Sul, acabo de chegar de Salvador na Bahia e o que vi foi mágico. Crianças com os livros pedindo autógrafos com os olhos brilhando."
A ilustração de Bárbara Quintino dialoga diretamente com o texto, criando uma simbiose visual e poética. "A Bárbara é incrível, foi um presente", diz Renato. "Ela teve total liberdade para ilustrar." E revela um momento de profunda emoção: "quando fomos fazer Neguinha, sim! Paris, choramos ao conversar sobre os detalhes."
A música tornou-se um hino de afirmação para muitas famílias. "Realmente venho recebendo muitos comentários positivos de quando o livro vem ajudando as crianças negras a se sentirem belas", conta. Uma história, em especial, marcou seu coração: "um comentário que até hoje me emociona é da Nega Duda, que me mostrou um vídeo da sua neta cantando Neguinha, sim!, no recôncavo baiano, cheia de orgulho do seu cabelo crespo".
Em um contexto de ataques à educação antirracista, livros como "Neguinha, sim!" ocupam um lugar fundamental. "Na construção de um espaço seguro, nos apontamentos, na denúncia, ou simplesmente na delicadeza de apontar caminhos de existir de uma forma mais digna", enumera. E sintetiza: "o papel do artista em uma sociedade é construir alimento para a alma".
Perguntado se a relação entre subjetividade e coletividade em sua obra é intencional ou emerge naturalmente, Renato responde com a simplicidade de quem encontrou sua verdade: "Ela é o transbordamento da minha existência". E conclui: "é importante fazer o que se faz de forma honesta e verdadeira, pois a tradução disso é ler esse questionamento".
Neguinha, sim! é mais que um livro. É um espelho. É um abraço. É uma canção que não se cala. E enquanto houver crianças precisando se ver bonitas, Renato Gama estará lá — transformando dor em poesia e silêncio em música.
*Matéria publicada originalmente na edição impressa do dia 13 de outubro de 2026.