Em 2018, um grupo de teatro formado exclusivamente por mulheres paraibanas, o Parahyba Rio Mulher, estreou espetáculo de mesmo nome dedicado a contar histórias de mulheres silenciadas, oprimidas pela violência estrutural, a exemplo da poeta e professora paraibana Anayde Beiriz. O projeto mudou de nome, mas os tempos de misoginia e a necessidade de abrir os olhos da juventude ainda são os mesmos. Concebido e escrito pelas atrizes Cely Farias, Kassandra Brandão e Natália Sá, O rio em curso: Parahyba Rio Mulher (65 minutos, livre) será reapresentado hoje, às 10h, no Liceu Paraibano (Centro da capital) e às 15h30, na escola Pedro Américo (Centro de Cabedelo). Ambas as apresentações são gratuitas e contarão com intérprete de Libras.
No ano passado, a montagem teve circulação regional, margeando o Rio São Francisco por cidades como Arcoverde (PE), Penedo (AL) e Neópolis (SE). Por ora, a barca atraca às águas dos rios Paraíba e Sanhauá, aproximando-se das origens de sua personagem principal, Anayde, que morava no Centro de João Pessoa. Cely Farias conta que a proposta partiu de uma provocação de Natália Sá, que na época cursava especialização de teatro no Célia Helena Centro de Artes e Educação, em São Paulo (SP).
Tendo iniciado uma pesquisa sobre performance, Natália convidou Cely e Kassandra em maio de 2018 para somarem com a parte prática do estudo. “Foi quando surgiram ali as primeiras inquietações”, diz Cely. “A gente começou a pesquisar um pouco sobre a história da Paraíba, nos deparamos com essa personagem icônica, que é a Anayde. E partimos, então, para um mergulho, em tudo que ela viveu e enfrentou, friccionando a história dessa mulher com as nossas próprias histórias, as nossas questões enquanto mulheres nesse mundo contemporâneo, mas fazendo uma relação com as coisas que Anayde passou há 100 anos atrás, [que] ainda são problemas atuais”.
Nascida e criada na capital paraibana, Natália Sá se mudou para São Paulo em agosto de 2017. Diante de atitudes xenófobas dos paulistanos na nova casa e das tensões políticas daquele momento, decidiu então montar a história às vésperas do pleito geral de 2018. “Sempre digo que sou ‘nordestilizada’ quando chego em São Paulo, porque realmente o preconceito e a xenofobia são enormes, e quis fazer um trabalho sobre isso”, Natália comenta.
“Propus que a gente fizesse uma performance pontual pra falar daquelas inquietações, da relação entre o corpo e a cidade. Esse é o tema da minha pesquisa, tanto artística quanto acadêmica – relação entre o corpo e o espaço, corpo e território, e eu quis falar disso em uma obra cênica”.
O trabalho, que é geralmente encenado nas ruas, foi criado por chamada de vídeo. Durante as idas e vindas de Natália à capital paraibana, o grupo convidou a atriz e percussionista Jinarla Pereira para compor a paisagem sonora e direção musical do espetáculo, do qual também participa a musicista Eliza Garcia. Provocada por uma pessoa do público, Jinarla entrou em cena e passou a integrar o elenco por ocasião da estreia da peça, em 4 de agosto de 2018. “A gente achava que ia ser um trabalho pontual, de provocação, na data de aniversário da cidade, mas daí em diante a gente começou a receber convites pra seguir circulando”, lembra Sá.
Anaydes, presentes!
Enredada de forma trágica aos acontecimentos políticos da década de 1930, Anayde Beiriz é mesmo o eixo concêntrico da performance de O rio em curso: Parahyba Rio Mulher. Mas ao redor da estrela maior dessa história orbitam mulheres outras, selecionadas pelo grupo como referências artísticas, culturais e políticas. Nem sempre as figuras femininas revisitadas projetam luz, mas contribuem em sua dura trajetória como exemplos de denúncia às diversas formas de violência, passeando por casos emblemáticos de feminicídio e agressões domésticas que marcaram o noticiário nos últimos anos – entre os nomes aventados no enredo estão os da ex-presidenta Dilma Rousseff e a jornalista e ex-deputada Manuela D’Ávila.
“A gente traz essa parte de denúncia, mas a gente se encaminha no espetáculo para concluir evocando uma força mais ancestral, trazendo essa conexão com o público”, atenta Cely, destacando momento potente da apresentação em que as histórias das avós das atrizes são convocadas. “É nesse momento que a gente também convida o público para compartilhar suas histórias de ancestralidade, a partir das histórias das suas avós, para evocar essa força e essa ideia comunal mesmo; para encontrar caminhos de resistência e de mudança nessa irmandade feminina”.
Em determinados momentos, Anayde é assumida como personagem. Mas o predomínio da linguagem performática implica na não assunção de personagens fixos, fazendo com que muitas das paisagens compostas no espaço cênico partam das vivências das próprias atrizes, alinhavadas por éter poético. “A gente é um tanto narradora, um tanto Anayde Beiriz, é um tanto nós mesmas”, confirma Farias. Natália reitera: “Temos um trabalho de persona pra ‘se’ colocar em questão. Quando a gente ‘se’ coloca em cena, colocamos as questões que queremos tratar em cena”.
Quanto ao texto, escrito por todas e de tratamento final (por elas denominado de dramaturgismo) a cargo de Natália Sá, atualiza-se, de acordo com Cely, a cada apresentação, dada a natureza sincrônica da proposta: “A gente lida com fatos da contemporaneidade, então a gente está sempre atualizando. O próprio teatro e a performance tem essa característica de ser vivo”.
A julgar pelos tempos de crise, Natália considera que o espetáculo já surge com caráter de insurgência. “É um espetáculo que fala da violência contra a mulher, parte de um fato histórico, que é a participação de Anayde Beiriz no golpe de 1930 – que as pessoas gostam muito de falar de Revolução de 1930”, ela ressalta, pontuando a “lavagem da honra” perpetrada por João Dantas frente à exposição da intimidade do casal Dantas-Beiriz.
“A gente recupera a história de Anayde, pra colocar a mulher como pivô, como protagonista de uma situação que mudou os rumos da história do Brasil [...] traz Anayde pra cena, pra incluir o protagonismo daquela mulher na trajetória política do Brasil. Com isso a gente mobiliza um traçado histórico e um paralelo com os dias atuais, costurando as histórias de Anayde com as histórias das atrizes e intérpretes que estão em cena”.
Além das apresentações gratuitas nas duas escolas da rede pública de ensino, o grupo ministra ainda, na Escola Pedro Américo, a oficina “O feminino em cena”, destinada a estudantes mulheres do Ensino Médio e da Educação de Jovens e Adultos (EJA).
*Matéria publicada originalmente na edição impressa do dia 09 de outubro de 2026.