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Lugar de mulher é contando piada

publicado: 23/10/2026 09h28, última modificação: 23/10/2026 09h28
Bruna Louise apresenta seu solo Uma deusa, uma loba, uma feiticeira: ela é demais – hoje, em Cabedelo, e amanhã, em Campina Grande – e diz como abriu espaço em um ambiente ainda muito masculino
Bruna Louise - foto Bianca Tatamiya.jpg

A humorista paranaense tornou-se a primeira mulher brasileira a estrelar um especial de comédia na Netflix | Foto: Bianca Tatamiya/Divulgação

por Daniel Abath*

Uma mulher leva o namorado gringo para assistir a um show de stand-up em português. “Olha a cara dele, não tá entendendo nada”, percebe a humorista. Outra, brasileira divorciada há cerca de 12 anos, diz que foi morar em Portugal e acabou casando novamente... com um brasileiro, evangélico. “Só melhora”, arremata a anfitriã. Essas e muitas outras histórias surgem aos borbotões pelos palcos do Brasil e do mundo, e quem comenta com humor o mais das vezes debochado é a comediante Bruna Louise. Uma deusa, uma loba, uma feiticeira: ela é demais (classificação 16 anos), seu novo espetáculo, está em cartaz hoje, às 21h, no Palazzo Cristal, em Cabedelo, e amanhã, às 20h, no Teatro do Garden Hotel, em Campina Grande. Os ingressos podem ser adquiridos pela plataforma Ingresso Digital — para Cabedelo, custam R$ 100 (inteira) e R$ 50 (meia); já em Campina Grande, variam de R$ 40 (meia/plateia alta) a R$ 100 (inteira/plateia VIP).

Em paródia à canção “Ela é demais” (de Rick e Renner), a tríade de arquétipos do título do atual espetáculo é ilustrativa da natureza multifacetada que há em toda mulher. “Eu acho que toda mulher tem um pouco dessas três coisas. Tem dia que a gente acorda deusa, maravilhosa, achando que domina o mundo. Tem dia que vira loba, sabe o que quer e não aceita qualquer coisa. E tem dia que é feiticeira, porque só fazendo uma magia pra entender certas situações da vida”, afirma Bruna em conversa com A União.

Nascida em Rio Branco do Sul, no Paraná, Bruna começou sua trajetória no teatro e passou a se dedicar ao stand-up por volta de 2010. Atriz, apresentadora e criadora de conteúdo, Louise evoluiu no cenário da comédia e ganhou evidência ao tematizar no palco relacionamentos amorosos desastrosos, enfatizando experiências pessoais (sobretudo eróticas) e situações cotidianas sob perspectiva feminina, dotada de linguagem direta, ironia e muita improvisação.

Projetando-se em um segmento artístico historicamente marcado pela presença masculina, lançou, em 2022, o especial de comédia da Netflix Demolição, vindo a tornar-se a primeira humorista brasileira a ter um episódio solo de stand-up na plataforma. “A gente sabe que é muito difícil pra uma mulher se destacar em qualquer área”, diz ela no programa. “Porque a gente sabe que, infelizmente, quando uma mulher se destaca em alguma área, toda vez que uma mulher consegue chegar numa posição de poder, sempre tem um Zé pra perguntar: ‘Pra quem que ela deu pra chegar onde ela chegou?’. Se perguntar pra mim pra quem eu dei: ‘Prum pessoal’”, brinca para a plateia, público expressivo nas redes sociais e no canal do YouTube da artista.

Avaliando o espaço conquistado pelas mulheres no stand-up e as barreiras que ainda precisam ser superadas, Bruna admite: “Hoje temos mais mulheres nos palcos e conquistando públicos enormes, mas ainda existe preconceito. O homem fala de sexo e é engraçado. A mulher fala de sexo e tem gente que ainda fica chocada. Gente! Mulher também transa, fala palavrão e tem história absurda pra contar!”.

Piadas da vida

O corrente projeto Uma deusa, uma loba, uma feiticeira sucede trabalhos como O que passa na cabeça dela? e Meus 15 anos, em comemoração da década e meia de carreira e passando em revista sua trajetória. Ao escancarar o corre-corre da vida contemporânea, seu recente especial do YouTube tem o nome sugestivo Ela está correndo, produção na qual a comediante relembra momentos marcantes de sua vida, como a aquisição do primeiro apartamento, acrescido de todos os estresses que somente uma construção pode oferecer.

“Nas redes, você tem poucos segundos pra prender a atenção de alguém. No teatro, dá pra desenvolver uma história e brincar com o público. As redes são ótimas pra alcançar quem ainda não conhece meu trabalho, mas o palco tem outra energia”, comenta, para quem a Netflix ampliou o alcance de seu trabalho. “É legal pensar que alguém pode conhecer minha comédia pelo celular ou pela televisão, mesmo sem nunca ter ido a um show”.

Quanto às apresentações ao vivo, um aspecto fundamental é a naturalidade com que faz piada valendo-se de elementos e fatos da própria vida: “Hoje eu consigo rir muito mais de mim mesma. No começo, a gente leva algumas coisas muito a sério. Agora eu já penso: bom, pelo menos isso vai render uns 15 minutos de show”.

Para Bruna, limitar o humor em função de perfis de plateia ou de reações esperadas é uma ação antitética à dinâmica de tal linguagem: “Eu acho que o humor precisa de liberdade pra provocar e fazer a gente rir de situações absurdas. Mas existe uma diferença entre construir uma piada e simplesmente querer ofender alguém. Tem gente que ama meu humor, tem gente que acha pesado. Se eu tentasse agradar todo mundo, não conseguiria nem escolher o restaurante do jantar”.

Falando o que pensa

Claro, ela tem o próprio texto, mas o público se mostra invariavelmente a “caixinha de surpresas” ideal para dar boas risadas — por vezes, como afirma, até mesmo uma “caixinha de problemas”. Ainda bem que o improviso é uma das técnicas de sua predileção no stand-up. “E tem público que entrega tanta história boa que dá vontade de perguntar se a pessoa quer dividir o cachê comigo”, brinca ela.

Louise acredita que a comédia contribui para questionar padrões e papéis sociais prescritos às mulheres em termos de relacionamentos e liberdades individuais? Ela pensa que sim, mas nada que extrapole o clima do risível e venha a transformar o espetáculo em uma palestra: “Até porque, se a pessoa quisesse assistir a uma palestra, provavelmente não compraria ingresso pra me ouvir falando. Gosto de levar pro palco situações que as mulheres vivem e que muitas vezes são tratadas como tabu. Se as pessoas riem e ainda saem pensando sobre o assunto, melhor ainda”.

Ao lembrar das regiões por onde passou, a humorista afirma identificar um jeito específico e uma atmosfera que envolve expressões e histórias locais. “Na Paraíba, quero sentir essa energia boa do povo nordestino, que tem um humor muito próprio e uma espontaneidade que eu adoro”, atesta. “Hoje tenho muito mais segurança pra falar o que penso, contar minhas vivências e expor minhas inseguranças. No começo, você ainda está descobrindo sua voz. Com o tempo, aprende a confiar mais no próprio trabalho. Quero continuar me desafiando, porque, se tem uma coisa que eu não quero, é ficar acomodada”.

*Matéria publicada originalmente na edição impressa do dia 23 de outubro de 2026.