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Luta feminina na cantoria

publicado: 06/11/2026 09h20, última modificação: 06/11/2026 09h20
Livro sobre Maria da Soledade será lançado amanhã em Alagoa Grande, contando a história de um nome combativo e importante dessa arte na Paraíba
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Cantadora enfrentou muito preconceito: “Jogaram meu nome na lama, mas não baixei a cabeça” | Foto: Adriano Franco/Divulgação

por Daniel Abath*

Nascida em 1942, no município de Alagoa Grande (PB), a repentista Maria da Soledade Leite se tornou um dos maiores nomes femininos da viola, numa época em que o jogo de improvisar era restrito aos homens. Como boa cantadeira, não arregou do desafio, fazendo do pé-de-parede sua profissão e arte ligada aos anseios das lutas sociais. Escrito pela jornalista Janaína Araújo, o livro Maria da Soledade: versos, voz e memória (Editora Tempo Livre, 120 páginas) busca aprofundar a história de força e superação da poeta do repente paraibano. A obra será lançada amanhã, às 19h, no Teatro Santa Ignez, em Alagoa Grande – em João Pessoa o lançamento acontecerá no dia 10 de dezembro, na Usina Cultural Energisa, dentro da programação do Natal na Usina 2026. 

Imagem: Divulgação/Tempo Livre

A aproximação entre a pesquisadora e a cantadora começou em 2015, quando Janaína esteve em Alagoa Grande para produzir algumas reportagens e conheceu Soledade durante uma cantoria. Mas o reencontro só veio a ocorrer no ano passado, durante a celebração do centenário da líder camponesa Elizabeth Teixeira. Na ocasião, a artista, apresentava-se ao lado do cantador Oliveira de Panelas, e foi justo a partir da articulação de uma amiga em comum, Socorro Borges, que sobreveio a possibilidade do projeto dedicado às memórias da violeira. “A gente tava conversando e ela disse: ‘Mulher, a gente tinha que escrever o teu livro de memórias’. Aí eu disse: ‘Era meu sonho’”, recorda Maria da Soledade em conversa com A União.

O projeto foi então inscrito no edital do ICMS Cultural, da Secretaria de Estado da Cultura da Paraíba, por meio da Associação dos Artistas, Produtores, Divulgadores e Defensores da Cultura de Alagoa Grande e da Obra de Jackson do Pandeiro (Afrorró), de Alagoa Grande. “Foi pela Afrorró que a gente conseguiu o recurso para fazer a pesquisa do livro, digitalizar o acervo dela”, comenta Janaína Araújo sobre a viabilidade do trabalho, que também contou com a participação de uma arquivista, do fotógrafo Adriano Franco para o registro das visitas, além de projeto gráfico e diagramação assinados pelo jornalista Ricardo Araújo.

A pesquisa para a obra começou em novembro do ano passado e se estendeu por aproximadamente um ano. Nesse período, Janaína percorreu com Soledade espaços relacionados à sua história, entre eles o sítio Jenipapo, onde a cantadora realizou sua primeira cantoria. O percurso etnográfico rendeu 12 capítulos, os quais acompanham diferentes momentos da vida da repentista, tais como a escolha de seu nome, a infância, as primeiras apresentações, o relacionamento com a família, a passagem pelo Rio de Janeiro e o desenvolvimento de sua carreira.

Memórias cantadas

“Depois a gente passeou na cidade, visitou a casa de amigas que já faleceram. Fui no cemitério com ela – tem até um capítulo que se chama ‘Os nomes gravados na pedra’, que é a visita que ela fez aos familiares que já se foram, a filha que ela perdeu por causa do câncer. E também relembrar as cantorias que ficaram, os prêmios que ela tem em casa, além de termos visitado a casa de Margarida Maria Alves”, destaca.

Incorporando versos e trechos de cantorias, a narrativa resulta ainda de várias entrevistas, durante as quais Soledade interrompia os relatos para cantar ou recitar passagens relacionadas às histórias que estava contando. “É um livro também cantado por Soledade, porque em muitos momentos ela lembra da história e canta. Tem muitos versos misturados com a narrativa dela e pesquisas que eu fiz por dissertações para checar datas”, explica Janaína.

Embora possua caráter biográfico, a publicação também reúne elementos de valor documental, destacando-se, entre outros, fotografias digitalizadas, recortes de jornais, a ficha sindical de Soledade, o passaporte que tirou quando da viagem à República Dominicana para participar de um encontro feminista, bem como o documento de filiação ao Partido dos Trabalhadores (PT), em 1981.

Uma violeira feminista

Amiga da ativista Margarida Maria Alves (1933-1983), a cantadora participou de movimentos e encontros feministas em um período no qual a simples presença da mulher na cantoria enfrentava severa resistência. Janaína destaca que a artista encontrou dificuldades até mesmo para circular socialmente, já que, por ter se separado e ser violeira, Soledade enfrentava o preconceito das próprias mulheres da cidade, que mantinham distância quando de sua presença sob o receio de que pudesse despertar o interesse dos maridos.

“Na época, uma mulher pegar em viola era uma desmoralização pra família. Porque era um reduto só masculino; uma jovem de 18, 19 anos abraçar uma viola… jogaram meu nome na lama, fizeram o que quiseram, e eu não baixei a cabeça. Eu disse: ‘Se Deus me deu o dom, ninguém toma’”, desabafa Maria da Soledade, que após deixar o sítio Jenipapo, casa de seus pais, resolveu abraçar a arte de vez.

Uma das passagens recuperadas no livro relata o encontro com a líder sindical Maria da Penha Nascimento (1949-1991), que a incentivou a romper o isolamento e participar das atividades reivindicatórias. A partir dessa aproximação, Soledade passou a estabelecer relações com as lutas coletivas e a utilizar a cantoria também como instrumento de expressão política. Seus versos deslocavam a representação feminina tradicionalmente presente nos desafios, em que as mulheres apareciam principalmente associadas ao ambiente doméstico, para apresentá-las como protagonistas das lutas sociais.

Soledade lembra que cantava nas sextas, sábados e domingos. Ao raiar da segunda-feira, trancava as portas e deixava apenas uma janela aberta: “Um dia Penha falou: ‘Mulher, por que é que tu só vive trancada?’. Aí eu disse: ‘Porque eu não tenho marido, tenho três filhos, a língua do povo é muito grande. Pra não viver batendo boca com ninguém, prefiro ficar trancada dentro de casa e só sair no final de semana pra fazer meus trabalhos’”. Conforme Soledade, Penha rebateu: “‘Mas não é assim que a gente dá a resposta, não. Vamos para um evento de mulheres’. Foi quando eu me engajei no movimento das mulheres trabalhadoras rurais”.

Com vasta participação na história do sindicalismo rural paraibano, Maria da Soledade, filiada ao PT, fez questão de destacar a presença da cor vermelha ao fundo da capa de seu novo livro, onde aparece com blusa verde. “Ela disse: ‘Deixa eu te falar uma coisa: azul não, porque eu sou petista’”, rememora Janaína, que aprovou a convicção da biografada: “Azul não vai passar, fica tranquila”.

*Matéria publicada originalmente na edição impressa do dia 06 de novembro de 2026.