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Oswaldinho foi gigante da sanfona

publicado: 27/10/2026 09h19, última modificação: 27/10/2026 09h19
Acordeonista morreu no domingo; ele foi do forró à música clássica e aproximou-se do rock progressivo
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O músico carioca e dois de seus discos importantes: Cada um belisca um pouco, com Dominguinhos e Sivuca, e Nordeste, eu te amo, quando ainda assinava “Oswaldo Silva" | Foto: Divulgação

por André Cananéa (Especial para A União)*

Um ás da música instrumental brasileira nos deixou no domingo (25), mas pouca gente notou. Oswaldo de Almeida e Silva, o Oswaldinho do Acordeon, morreu no dia do 2º turno, aos 74 anos de idade, e, enterrado sob o passo-a-passo de uma eleição que dividiu o Brasil ao meio, os veículos nem sequer conseguiram apurar o motivo da morte. Pessoas próximas ao músico carioca, entre elas o paraibano Orlando Camboim, anunciaram o falecimento do acordeonista em suas redes sociais, sem maiores detalhes, apenas lamentando a morte do músico e enaltecendo sua carreira.

O trio que compôs o soberbo Cada Um Belisca Um Pouco (Biscoito Fino, 2004), agora está junto no céu. Ao colocar Oswaldinho (1954-2026) ao lado de Sivuca (1930-2006) e Dominguinhos (1941-2013), o CD (nunca lançado em vinil) colocava o carioca no lugar que lhe fazia justiça, como um dos grandes acordeonistas do país, desses com forte ligação com o Nordeste.

Esse contato, claro, veio através de Luiz Gonzaga, compadre de Pedro Sertanejo, sanfoneiro que ajudou a difundir o forró em São Paulo e pai do futuro Oswaldinho do Acordeon. Mas não só o velho Lua. “Lá em casa, todo mundo ia fazer visita, consertar os instrumentos, desde Luiz Gonzaga a Orlando Silveira, de Sivuca a Gerson Filho, sanfoneiro de oito baixos”, declarou Oswaldinho aos jornalistas Carlos Marcelo e Rosualdo Rodrigues, em depoimento registrado no obrigatório livro O Fole Roncou! Uma História do Forró (Zahar)

A carreira de Oswaldinho tem umas particularidades e “belisca” a música da Paraíba desde seu disco de estreia, quando ainda se chamava Oswaldo Silva. O LP Evolução, lançado em 1968, traz na capa uma foto do músico com apenas 14 anos e saiu pela gravadora Cantagalo, que também lançou discos de Jackson do Pandeiro, entre eles (É Sucesso), cuja capa está impressa na contracapa do disco de Oswaldinho, junto a outros títulos do selo.

E não para por aí: a terceira faixa do Lado A é “Forrozinho Gostoso”, do paraibano de Taperoá Zito Borborema, composta em parceria com sua parceira de arte e de vida, Chiquinha do Acordeon.

Então Oswaldinho era esse artista profundamente conectado com o Nordeste. Um de seus discos mais badalados saiu em 1972 pela MusiColor: Nordeste Eu Te Amo, ainda assinado como Oswaldo Silva. O repertório, claro, só tem nordestino e a Paraíba está muito bem representada por Antônio Barros, de quem ele gravou “Homenagem a Zé Dantas”.

“Eu gravei vários LPs voltados pro Nordeste, mas eu era mais um e não conseguia vender o suficiente”, queixou-se em O Fole Roncou. Resultado: ao aproximar-se do rock (em especial o hard rock e o rock progressivo) chegou à música clássica, que o levou a Forró In Concert (1980), onde apresentou uma releitura para a “Sinfonia Nº 5”, de Beethoven, com direito a zabumba e triângulo e foi logo apelidado de “Sanfoninha de Beethoven”. “Começou a dar certo, comecei a popularizar, mas também levei muita pancada na cabeça”, recorda.

Esse viés erudito está impregnado em trabalhos como o citado Cada Um Belisca Um Pouco - aliás, o título do álbum é o nome da única música de Oswaldinho, um forró chorado em parceria com Paulo Nascimento, presente no repertório de 12 faixas, que traz muitos clássicos de Luiz Gonzaga, Sivuca e Dominguinhos, além de “Roseira do Norte”, de Pedro Sertanejo.

A produção discográfica de Oswaldinho do Acordeon nem é muito numerosa: não chega a duas dúzias, ao longo de 40 anos de carreira. A maioria dos LPs saiu entre as décadas de 1970 e 1980, rareando na era do CD (anos 1990).

Em 2009 saiu o derradeiro álbum dele, o CD Lição de Casa (Baticum Discos), com uma tiragem baixíssima (apenas mil cópias). Entre regravações de Dominguinhos ("Tenho sede", dele e Anastácia) e Astor Piazzolla ("Oblivion), há uma pérola paraibana: "Um Tom Para Jobim", única parceria, ao que parece, entre o carioca e Sivuca.

Em tem mais Paraíba no CD: “Saudade de Jackson do Pandeiro" celebra o Rei do Rimo em uma canção de Bedeu e Luiz Wagner, lançada originalmente como um samba-rock no CD Swing & Samba-Rock (2001), do Clube do Balanço.

Portanto, ao sair de cena, Oswaldinho do Acordeon deixa um legado virtuoso e uma história incrível que aproximou o Rio de Janeiro do Nordeste, e misturou Beethoven com Luiz Gonzaga.

*Matéria publicada originalmente na edição impressa do dia 27 de outubro de 2026.