Lançado no início deste mês pela organização global de conservação ambiental WWF, em parceria com a Sociedade Zoológica de Londres (ZSL), o relatório Planeta Vivo 2026 aponta uma redução média de 73% no tamanho das populações monitoradas de animais vertebrados silvestres de 1970 a 2022. Na América Latina e no Caribe, a queda chega a 95%. A perda e a degradação de hábitats, a exploração excessiva e as mudanças climáticas estão entre as principais ameaças às populações acompanhadas.
Para Gentil Filho, biólogo e pós-doutor em Zoologia, estimar quantas espécies desapareceram do território paraibano é uma tarefa complexa. O estado sofreu altas taxas de desmatamento, principalmente da Mata Atlântica, em um processo que começou durante a colonização e continua até hoje. A perda de hábitat é a principal ameaça à fauna local, acompanhada pela caça e a exploração, além do isolamento das populações e do aquecimento global.
“Se imaginarmos a redução que a Floresta Atlântica e a Caatinga sofreram, não é difícil pensar em extinções não só de vertebrados, mas também de invertebrados e plantas. A redução foi muito drástica, é possível que várias espécies tenham sido extintas sem nem mesmo terem sido descobertas pela ciência”, esclarece.
Entre os mamíferos apontados pelo pesquisador como desaparecidos do estado, estão a onça-pintada, a anta, o tamanduá-bandeira e o queixada. No caso do cateto, também conhecido como “caititu”, ele pondera que ainda podem existir populações em serras isoladas do interior, mas essa presença precisa ser averiguada.
A diminuição afeta outros grupos como as aves. Segundo Gentil, espécies como o uru-do-nordeste (Odontophorus capueira) e o gavião-pega--macaco (Spizaetus tyrannus) contam com ocorrências pontuais. “Nessa mesma situação, encontra-se a araponga-do-
-nordeste (Procnias averano), também conhecida como “Ferreiro”, que era relativamente comum em gaiolas durante as décadas de 1970 e 1980, e hoje conta com apenas um único registro na Reserva Biológica Guaribas”, destaca.
Entre os répteis e anfíbios, a escassez de informações dificulta a identificação de extinções locais. Ainda assim, o biólogo aponta sinais de redução nas populações de duas serpentes: a jararacuçu-do-brejo (Palusophis bifossatus), cujos últimos registros no estado, segundo ele, datam da década de 1980, e a papa-
-pinto (Drymarchon corais), que apresenta poucas ocorrências, também concentradas naquele período.
Os anfíbios, por sua vez, formam um grupo particularmente sensível às alterações ambientais, com espécies que podem funcionar como bioindicadores da qualidade dos ambientes. Entre os peixes, o pesquisador alerta para a pressão que o desmatamento e a redução de hábitats saudáveis podem exercer sobre os peixes-das--nuvens.
Efeitos nos ecossistemas
Os reflexos da diminuição ou do desaparecimento de populações animais vão além das espécies diretamente afetadas. Ambientes naturais saudáveis dependem das interações entre os seres vivos e os elementos não vivos, e a perda de uma dessas relações pode comprometer o funcionamento do ecossistema.
“Algumas espécies de plantas possuem polinizadores específicos, como alguns pássaros e morcegos. Se esses polinizadores forem extintos, o desaparecimento dessas plantas que dependem deles é apenas uma questão de tempo”, exemplifica o biólogo.
Gentil lembra, ainda, do controle biológico das populações, que são basicamente regidos por interações entre predadores e presas. Sem os predadores, algumas presas aumentam de forma descontrolada as suas populações. A relação entre serpentes e ratos é um exemplo desse controle. Se o número de serpentes que consomem ratos diminuir, as populações de ratos tendem a aumentar. “O desaparecimento das espécies animais empobrece os ecossistemas e causam sérios problemas nos chamados ‘serviços ecossistêmicos’, dos quais nós, seres humanos, somos beneficiários”.
Biodiversidade aquática enfrenta ameaças crescentes
Os ambientes de água doce foram os mais afetados, de acordo com o relatório Planeta Vivo 2026. Nesses locais, as populações registraram um declínio médio de 85%, seguido pelos ambientes terrestres (69%) e marinhos (56%).
Além das ameaças aos hábitats, a falta de informações dificulta o acompanhamento dessas perdas. Ecóloga e professora da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), Luciana Barbosa explica que animais de ambientes aquáticos ainda recebem pouca atenção. “Espécies de água doce e de ecossistemas aquáticos, em geral, são negligenciadas em inventários e na literatura, o que faz com que a falta de investigação seja confundida com a ausência de espécies em determinada área”.

- Sobrevivência dos peixes-bois-marinhos tem sido ameaçada por fatores como a perda e a degradação de hábitats costeiros | Foto: Divulgação/FMA
Fundadora e coordenadora de redes internacionais de pesquisa, entre elas a Rede Internacional de Limnologia em Terras Secas e Áridas e o Observatório Global de Ecossistemas Aquáticos e Biodiversidade em Ilhas Oceânicas, a professora trabalha para preencher tais lacunas. A limnologia estuda os ecossistemas aquáticos continentais, como rios, lagos, reservatórios e áreas alagadas. As iniciativas buscam integrar informações produzidas em diferentes regiões do mundo.
Uma das frentes do trabalho é a padronização dos procedimentos de coleta, análise e identificação das espécies. A proposta é permitir que dados obtidos em diferentes países sejam comparados, reduzindo erros que podem levar à subestimação ou à superestimação da biodiversidade. Com essas informações, os pesquisadores pretendem compreender melhor as alterações nos ambientes aquáticos e subsidiar medidas de conservação.
Quando a equipe do jornal A União entrou em contato, a pesquisadora estava efetuando um trabalho de campo em Galápagos, arquipélago localizado no Oceano Pacífico, com o objetivo de realizar um inventário da biodiversidade das ilhas.
Conforme relatou Luciana, a caracterização da região traz desafios logísticos consideráveis. “Muitas ilhas e ecossistemas aquáticos apresentam elevado grau de isolamento, e alguns dos mais de 1.390 ecossistemas aquáticos identificados ainda não foram acessados ou visitados. Essa limitação dificulta a realização de levantamentos abrangentes da biodiversidade e evidencia a necessidade de esforços coordenados de pesquisa internacional para estabelecer linhas de base, preencher lacunas de conhecimento e subsidiar o monitoramento de longo prazo e a conservação desses ecossistemas”.
Embora o arquipélago seja conhecido pelas ações de conservação e pelos estudos sobre a fauna terrestre e marinha, ambientes como lagos, lagoas e poças temporárias possuem informações fragmentadas. Por isso, a equipe está construindo uma linha de base: um conjunto de registros que permita conhecer esses ambientes e acompanhar suas mudanças ao longo do tempo.
Uma das hipóteses investigadas é que os efeitos combinados do aquecimento global e de eventos intensos de El Niño possam elevar a temperatura das lagoas e favorecer o aumento de cianobactérias. Em determinadas condições, esses organismos podem produzir toxinas prejudiciais à fauna e aos seres humanos. De acordo com Luciana, peixes, aves e tartarugas gigantes estão entre os grupos potencialmente mais vulneráveis nesse contexto.
Nas ilhas habitadas, outras pressões somam-se às alterações climáticas. O escoamento agrícola, as mudanças no uso do solo e o lançamento de esgoto sem tratamento comprometem a qualidade da água e podem favorecer o excesso de nutrientes e a proliferação de cianobactérias. A elevação do nível do mar também pode intensificar a entrada de água salgada em aquíferos e lagoas costeiras.
Identificar essas alterações e acompanhar seus efeitos sobre as espécies é uma das contribuições do trabalho coordenado pela pesquisadora para a conservação da biodiversidade nesses ecossistemas.
Animais protegidos
Na costa paraibana, a conservação do peixe-boi-marinho também depende da proteção dos ambientes utilizados pela espécie e do acompanhamento de suas populações. Os animais representam um exemplo daqueles que tiveram suas populações drasticamente diminuídas ao longo dos anos.
É nessa frente que atua a Fundação Mamíferos Aquáticos (FMA), organização da sociedade civil sem fins lucrativos que trabalha, desde 1989, com foco na conservação dos mamíferos aquáticos e de seus hábitats. Doutora em Ecologia e coordenadora do Núcleo de Educação Ambiental e Desenvolvimento Comunitário da FMA, Iara Medeiros explica como a perda desses espaços e outras ameaças têm afetado a espécie.
“Historicamente, o peixe--boi-marinho (Trichechus manatus) ocorria desde o Amapá até o Espírito Santo. Entretanto, a espécie sofreu extinções locais em estados como Espírito Santo, Bahia e Sergipe, apresentando, atualmente, uma distribuição mais restrita e fragmentada. Em Sergipe e na Bahia, há registros de indivíduos reintroduzidos em Alagoas que frequentam essas regiões. No Brasil, a espécie foi recentemente reclassificada como ‘criticamente em perigo de extinção’, evidenciando a gravidade de sua situação e a necessidade de intensificar as ações de conservação”, detalhou.
A caça foi um dos principais fatores responsáveis pelo declínio das populações da espécie. Contudo, atualmente, outras ameaças comprometem a sobrevivência de indivíduos, como a perda e a degradação de habitats costeiros e estuarinos, os encalhes de filhotes, as capturas acidentais em redes de pesca, a poluição e as colisões com embarcações motorizadas. Esses fatores aumentam a mortalidade e dificultam a recuperação das populações naturais.
A Paraíba constitui uma área importante para a ocorrência de peixes-bois-marinhos no Nordeste brasileiro. No município de Cabedelo, há registros de indivíduos reintroduzidos e nativos, incluindo fêmeas acompanhadas de filhotes. Entretanto, o tráfego intenso de embarcações representa uma ameaça à espécie, especialmente pelo risco de colisões e ferimentos.
“Esse cenário exige medidas efetivas de conservação por parte das instituições responsáveis e da sociedade. A população pode contribuir diretamente evitando a aproximação dos animais, não oferecendo alimentos e navegando com atenção e velocidade adequada nas áreas de ocorrência, reduzindo os riscos de acidentes e os impactos sobre esses mamíferos ameaçados”, finalizou Iara.
*Matéria publicada originalmente na edição impressa do dia 26 de outubro de 2026.