Médica-veterinária e gestora pública, Pollyanna Werton (Progressistas) construiu sua trajetória entre a administração municipal, o Legislativo e o Executivo estadual. Natural de Natal, no Rio Grande do Norte, consolidou sua atuação política na Paraíba, onde foi prefeita de Pombal por dois mandatos, de 2008 a 2016, e deputada estadual, de 2018 a 2022. Ainda em 2022, disputou vaga no Senado Federal, mas ficou na segunda colocação, ao obter quase 500 mil votos. A partir de então, passou a chefiar a Secretaria de Estado do Desenvolvimento Humano da Paraíba. No último dia 4 de outubro, tornou-se a quarta mulher na história da Paraíba a conquistar uma cadeira na Câmara dos Deputados. Pollyana chegará a Brasília, em 2027, com a proposta de ampliar a geração de emprego e renda no interior, fortalecer as economias regionais e aproximar as políticas públicas das necessidades da população. Nesta entrevista ao jornal A União, ela fala sobre representatividade feminina, desigualdades sociais, proteção aos trabalhadores por aplicativo e as prioridades que pretende levar ao Congresso Nacional.
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Como é assumir um mandato sendo a única mulher entre os 12 deputados federais eleitos pela Paraíba?
É uma grande responsabilidade. Três mulheres me antecederam e abriram esse caminho. Hoje, eu estou aqui. Não me sinto minoria, um ponto fora da curva ou uma exceção. Sinto a responsabilidade de abrir ainda mais espaço para outras mulheres, mostrando que é possível ocupar a política e fazer um bom trabalho. Quero promover essa reparação histórica às mulheres, levar pautas femininas para o Congresso Nacional e defender pautas da vida real, que dialoguem com o dia a dia da população.
- A senhora afirmou, em outra ocasião, que é “uma mulher sobrevivente na política”. O que essa expressão significa?
Isso mesmo, eu sobrevivi. Não é fácil uma mulher da vida real, vinda do Sertão da Paraíba, ocupar esse espaço no Congresso Nacional. Levei 20 anos para chegar até aqui. Fui prefeita, passei pela Assembleia Legislativa, disputei uma eleição majoritária para o Senado e assumi uma secretaria estadual. Foi um caminho de construção para mostrar que eu era capaz, para estadualizar o meu nome. Enfrentamos violência psicológica, violência política de gênero, violência patrimonial e o silenciamento de homens machistas que se acham donos do poder. Há ataques e xingamentos que afastam as mulheres da política e fazem com que muitas desistam de colocar o próprio nome e CPF na disputa. Não foi fácil. Digo que sobrevivi, mas espero que outras mulheres enxerguem essa trajetória e compreendam que também podem chegar lá.
- Quais serão as prioridades do seu mandato na Câmara dos Deputados?
Primeiro, quero fazer valer aquilo que construímos durante a eleição. Realizei 300 plenárias, fui às regiões mais distantes do estado, estive em quilombos, associações de mulheres e cooperativas. A principal reclamação foi a falta de oportunidades para gerar renda no próprio território. Muitas famílias veem os filhos sair de casa ao atingir a maioridade, porque não encontram oportunidades onde vivem. Minha principal missão será contribuir para criar condições de geração de emprego e renda, reduzindo desigualdades sociais e ampliando oportunidades. A política pode fomentar esse ambiente por meio da organização das cooperativas, do fortalecimento das vocações regionais e do desenvolvimento da economia criativa. O poder público também pode abrir mercados para a produção da agricultura familiar, por meio das compras governamentais. Eu vou participar da Comissão de Desenvolvimento Regional, porque entendo que as vocações regionais precisam ser potencializadas. Quero estar lá para ajudar a viabilizar um laticínio no Sertão, uma agroindústria de polpas de frutas no Brejo e impulsionar o artesanato, a costura e o bordado. Meu papel será fomentar as regiões para que elas gerem renda e autonomia para as famílias.
- A senhora defende um “mandato popular”. Como pretende transformar as demandas da população em ações concretas?
O poder não tem dono, e a cadeira é do povo. Não será apenas o assento de Pollyanna na Câmara, mas o espaço de pessoas que vivem em lugares, muitas vezes, invisíveis do estado, que acreditaram no meu trabalho. Quero dizer que a Paraíba precisa estar em Brasília e Brasília precisa estar na Paraíba, por meio de ações de cidadania, desenvolvimento, empoderamento e cultura de paz para as mulheres. Também precisamos discutir obras importantes, como a duplicação da BR-230. Em todas as caminhadas e plenárias, as pessoas tinham algo a acrescentar, a reclamar ou a pedir. São esses pedidos que legitimam a política. Uma mulher me disse: “O poder é coletivo, não pode ser bom só para o deputado que ganha; tem que ser bom para a gente que ganhou”. E como é bom? Quando se devolve uma creche para que o filho dela fique protegido e ela possa trabalhar. Quando se cria uma creche noturna para que o ambulante possa deixar o filho enquanto trabalha. Quando se constrói uma quadra de esporte para que a juventude pratique atividade física e não se desvie do caminho. O mandato é bom quando as pessoas se sentem parte dele. Vou buscar a interlocução entre Legislativo e Executivo, com parcerias do Governo Federal e do Governo Estadual, para que as políticas públicas cheguem à população.
- Após as plenárias da campanha, quais necessidades da população mais chamaram sua atenção?
Em cerca de 70% das plenárias, as mulheres falaram sobre violência de gênero. Elas falaram também da dificuldade de acesso à renda, que limita o empoderamento e, muitas vezes, impede que saiam de situações de abuso e violência por parte do parceiro. Elas queriam renda, mas queriam trabalhar no próprio território, sem precisar sair dele. Outra demanda recorrente foi a situação das famílias de pessoas autistas. Em quase 90% das plenárias, esse tema apareceu. Muitas mães relataram que o filho tinha o BPC [Benefício de Prestação Continuada], mas a família não conseguia acessar o Bolsa Família, porque o benefício da criança limitava outras possibilidades para os demais membros da família. O marido, às vezes, não podia formalizar a carteira de trabalho por conta disso. Era como uma condenação financeira — e o BPC, muitas vezes, não dava nem para os remédios. Elas pediam que os remédios fossem incluídos na lista do SUS [Sistema Único de Saúde], para que a família pudesse recebê-los gratuitamente e a mulher pudesse trabalhar sem perder o benefício do filho. Também ouvi reivindicações relacionadas à fibromialgia, cujos remédios são caros, e à necessidade de ampliar o acesso a tratamentos. As mulheres falaram, ainda, da luta por igualdade salarial. Os homens falaram da baixa renda e da necessidade de acumular empregos para sustentar a família. Já os jovens demonstravam sentir falta de políticas públicas e de oportunidades.
- Quais setores da economia paraibana a senhora considera prioritários para ampliar emprego e renda? E quais instrumentos pretende mobilizar para esse fim?
A Paraíba é muito plural e não tem um único motor de desenvolvimento. Cada região possui atividades capazes de impulsionar a economia. A agricultura familiar, as energias renováveis e a água da transposição do Rio São Francisco podem contribuir para esse processo. Temos mel de abelha, caprinocultura no Cariri, queijos no Sertão e cachaças no Brejo. O que falta, em muitos casos, é organizar as cadeias produtivas e abrir caminhos para a comercialização. O estado pode ser um mercado para absorver essa produção e também facilitar o acesso à iniciativa privada. Pretendo atuar para que a legislação e a tributação favoreçam esses setores. É preciso dialogar com o Executivo e criar condições para que cada território desenvolva seu potencial. A economia paraibana é diversa, e as políticas públicas precisam considerar essa diversidade.
- A duplicação da BR-230 e a criação de uma Região Integrada de Desenvolvimento Econômico (Ride) entre Paraíba e Pernambuco estão entre suas propostas. Como pretende avançar nessas pautas?
Esses dois pontos são a virada de chave da Paraíba. A BR-230 é um corredor econômico estratégico. A duplicação no estado melhoraria a mobilidade e facilitaria o escoamento da produção até o Porto de Cabedelo. São Bento, por exemplo, tem um importante polo têxtil de redes, enquanto Catolé do Rocha se destaca pela produção de panelas de alumínio. Hoje, veículos de passeio disputam espaço com caminhões de carga, o que dificulta o transporte. A Região Integrada de Desenvolvimento entre Paraíba e Pernambuco também pode impulsionar a economia. Campina Grande tem produção relevante nas áreas de tecnologia, comércio e comércio eletrônico, assim como Caruaru, em Pernambuco. A integração pode estimular as atividades econômicas, facilitar a comercialização e ampliar oportunidades de exportação. A proposta funcionaria como uma espécie de porto seco, reduzindo burocracias e facilitando o acesso de produtos da região ao mercado externo. Esse projeto está há mais de cinco anos em tramitação na Câmara e precisa ser retomado. Precisamos articular essas propostas e criar condições para gerar emprego qualificado e fortalecer a economia dos dois territórios.
- A senhora também defende uma rede de proteção para trabalhadores por aplicativo. Quais direitos e garantias considera fundamentais para motoristas e entregadores?
Primeiro, é preciso regulamentar a profissão. Esses trabalhadores precisam existir de fato e de direito, com todas as proteções da lei, como qualquer outra categoria. É preciso entender a flexibilidade de horários, mas também garantir contribuição previdenciária e proteção social. Eles precisam ter prioridade na Previdência Social quando se acidentarem. Quem usa o transporte por aplicativo como sustento não pode ficar seis meses em casa com o fêmur quebrado, após uma queda de moto, sem conseguir um auxílio emergencial, concorrendo com todas as patologias do país. Eles precisam de prioridade nesse atendimento. Também é preciso garantir saúde, piso de remuneração e espaços de descanso. Muitos trabalham 16 horas e descansam onde? Na calçada, sob sol e calor. O poder público — prefeituras, Estado e União — pode oferecer espaços, até em contêineres climatizados, onde eles possam carregar o celular, usar o banheiro e descansar. Uma mulher motogirl precisa de condições para descansar. Ninguém é máquina; somos seres humanos. Esse modelo de trabalho veio para ficar no Brasil depois da pandemia, principalmente entre os entregadores. Mas eles precisam estar no eixo de proteção social da Constituição, com os mesmos acessos de qualquer trabalhador. E as mulheres precisam de uma proteção ainda maior. Quando uma mulher vai para cima de duas rodas, enfrenta assédio moral e sexual. Se ela entrega um alimento à meia-noite na casa de um homem, precisa ser respeitada. O agressor precisa ser punido e o aplicativo não pode desligá-la porque ela denunciou. Esses direitos precisam estar escritos e regulamentados por lei. E somos nós, no Legislativo, que vamos lutar por eles.
- Nas plenárias, a senhora ouviu relatos sobre dificuldades de acesso à saúde, à educação e à renda. Que mudanças considera necessárias para reduzir as desigualdades sociais na Paraíba?
As desigualdades sociais têm raízes históricas e deixam marcas até hoje, como o racismo estrutural e as dificuldades enfrentadas por quem vive longe da capital para acessar políticas públicas. A descentralização dos serviços de saúde e educação e a interiorização do Ensino Superior ajudam a reduzir essas diferenças. Quando serviços estratégicos chegam a outras regiões, a população passa a ter mais acesso a direitos e oportunidades. Também é fundamental fomentar a geração de renda e valorizar o potencial de cada território. Reduzir as desigualdades exige que os governos e as instituições trabalhem com esse objetivo comum.
- Ao fim do primeiro ano de mandato, que resultado concreto a senhora gostaria de apresentar à população paraibana como marca de sua atuação?
Já comecei a dar retorno às lideranças com quem estive nas comunidades e associações. Eles falam muito dos arranjos produtivos: organizar e ser uma ponte com o Estado para que quem produz ovo, mel ou leite consiga ter registro e acessar mercados. Se, ao fim do primeiro ano, conseguirmos entender essas vocações e fomentá-las por meio de emendas parlamentares e do diálogo com o Poder Executivo, eu vou me sentir satisfeita. Quero que as pessoas consigam abrir o próprio caminho, e a política pode ser um instrumento para isso.
*Matéria publicada originalmente na edição impressa do dia 03 de novembro de 2026.