Sem mencionar — tampouco agradecer — os 59,8 milhões de brasileiros que o apoiaram nas urnas, Flávio Bolsonaro (PL) classificou sua derrota na disputa presidencial como “sacanagem” e disse que vai pedir a anulação do pleito. A declaração ocorreu em coletiva de imprensa, logo após a apuração dos votos do segundo turno e a confirmação da reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
Flávio Bolsonaro acusou o Supremo Tribunal Federal (STF) de mudar regras da eleição. No fim da tarde, o ministro Cristiano Zanin havia determinado a prorrogação da votação em todo o país. A decisão, contudo, atendeu a pedidos formulados não só pelo Partido dos Trabalhadores, mas também pelo Partido Liberal — fato omitido no pronunciamento.
A campanha de Lula apontou como justificativa as denúncias de redução da frota de ônibus e dificuldades de deslocamento de eleitores nos estados da Paraíba, Pernambuco, Bahia, Alagoas, Piauí, Roraima, Pará, São Paulo, Rio de Janeiro e Paraná. Já a equipe de Flávio Bolsonaro mencionou chuvas, alagamentos e interdições em São Paulo, Paraná e Santa Catarina.
“É impossível reconhecer o resultado das eleições no contexto como essas coisas aconteceram. Nós vamos usar o nosso jurídico, vamos pedir a anulação dessas eleições. Não vou aceitar que a regra do jogo tenha sido mudada em cima do jogo, mais uma vez, pelos amigos do Lula no Supremo Tribunal Federal. É inexplicável isso ter acontecido. As coisas acontecem do nada, a pedido de um ex-sócio, do próprio Zanin, e ele atende a um pedido e passa por cima da Justiça Eleitoral”, declarou.
O candidato do PL ainda afirmou, sem provas, que fiscais de seu partido foram prejudicados. “Nossos fiscais do PL foram retirados de dentro das salas-cofre a partir do momento que essa decisão foi tomada. Há muita coisa para ser esclarecida antes de o Brasil reconhecer essa sacanagem que aconteceu”, disse.
Campanhas frustradas
Essa é a segunda derrota consecutiva da família Bolsonaro para o petista: em 2022, Jair Bolsonaro (PL), pai de Flávio, foi vencido por Lula por uma diferença de 2,1 milhões de votos.
No pleito anterior, Jair Bolsonaro levou dois dias para fazer seu discurso de derrota, no qual reconheceu o resultado, mas não parabenizou Lula pela vitória — o que era praxe entre os derrotados até então. Bolsonaro também negou-se a passar a faixa presidencial a Lula durante a cerimônia de posse.
Ataques às urnas
Durante a campanha deste ano, havia dúvidas se Flávio respeitaria o resultado da eleição caso derrotado, principalmente após uma declaração em que questionou a confiabilidade das urnas eletrônicas.
Em julho, o senador pediu, durante um encontro com embaixadores estrangeiros, que seus países enviassem “a maior quantidade de observadores possíveis” para supervisionar as eleições brasileiras em outubro e mencionou possíveis fraudes nas urnas usadas em eleições venezuelanas. O Tribunal Superior Eleitoral (TSE), porém, nega o uso de aparelhos daquele país.
Nos últimos meses, o presidenciável também fez críticas à Justiça Eleitoral e ao STF, o qual acusou de interferir no pleito. “Ninguém aguenta mais um país em que você olha para Brasília e dá nojo da forma como as coisas são decididas na mais alta Corte deste país. Eles [STF] claramente tentam interferir nas eleições sob o pretexto de proteger a democracia. Eles destruíram a nossa democracia”, falou, durante um comício em São Luís, capital do Maranhão, em setembro.
Na semana passada, Flávio Bolsonaro afirmou que respeitaria o resultado da eleição, mesmo se perdesse. “Vou disputar as eleições com as regras que estão aí. Independentemente de qual for o resultado, vou respeitar”, declarou, durante sabatina promovida pela TV Globo.
*Matéria publicada originalmente na edição impressa do dia 26 de outubro de 2026.