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TSE nega que fiscais foram expulsos

publicado: 27/10/2026 09h26, última modificação: 27/10/2026 09h26
Após fracassar na disputa presidencial, Flávio afirmou, sem provas, que representantes do PL foram prejudicados
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Tribunal informa que fiscais de partido têm acesso às Salas de Totalização, mas não à sala-cofre | Foto: Nelson Jr/TSE

O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) informou, ontem (26), ser falsa a afirmação de Flávio Bolsonaro (PL), candidato derrotado na disputa presidencial, de que fiscais de seu partido foram expulsos da sala-cofre da Corte durante a apuração dos votos do segundo turno, no último domingo (25). Flávio perdeu para Luiz Inácio Lula da Silva (PT) por cerca de 4,4 milhões de votos de diferença.

“A sala-cofre do TSE não é um espaço aberto à visitação. Todas as demais unidades e áreas do tribunal, como a Sala de Totalização, podem ser visitadas por fiscais de partidos, observadores internacionais, advogados e membros do Ministério Público, entre outros, que acompanham, de lá, desde o início, a totalização e a divulgação dos resultados do pleito”, esclareceu a Justiça Eleitoral.

O TSE confirmou que dois fiscais do PL estiveram no TSE, onde acompanharam o Teste de Integridade das Urnas, no subsolo do edifício-sede, em Brasília. Eles também estiveram na Sala de Totalização e na Sala dos Partidos Políticos, que fica no quinto andar do prédio. “Há registro de presença nos locais visitados, além de filmagem na Sala de Totalização, que comprovam o acesso livre dos fiscais às unidades do TSE”, diz a nota divulgada pelo tribunal.

Após o TSE ter cravado o resultado da eleição, dando vitória a Lula com 51,79% dos votos, Flávio Bolsonaro disse, em discurso, ser “impossível” para ele reconhecer a derrota. No mesmo discurso, ele acusou a Justiça Eleitoral de ter retirado os fiscais da sala-cofre.

A justificativa que o candidato deu para não reconhecer a vitória de Lula foi a decisão do ministro Cristiano Zanin, do Supremo Tribunal Federal (STF), que, perto do horário de encerramento da votação, às 17h, decidiu prorrogar a eleição até as 19h, em todo o território nacional.

A medida atendeu a pedidos da coligação Brasil Pronto Pra Mais, de apoio a Lula, e da própria candidatura de Flávio, que também solicitou a prorrogação junto ao TSE.

Liberal ficará sem cargo e sem foro privilegiado

por: Rayanderson Guerra (Agência Estado)*

Pela primeira vez em 24 anos, Flávio Bolsonaro, senador pelo PL e candidato derrotado à Presidência da República, não terá mandato e, por consequência, perderá o foro por prerrogativa de função, também chamado de “foro privilegiado”.

O filho mais velho do ex--presidente Jair Bolsonaro (PL) não aceitou a derrota no segundo turno das Eleições 2026. Ele contestou a vitória de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e disse que vai acionar a Justiça contra o resultado das urnas.

A carreira política de Flávio Bolsonaro começou em 2002. Aos 21 anos, ele foi eleito deputado estadual no Rio de Janeiro e assumiu o primeiro mandato em 2003. Foi reeleito em 2006, 2010 e 2014 e ficou na Assembleia Legislativa do estado, a Alerj, até o fim de 2018.

Em 2018, Flávio foi eleito senador pelo Rio com mais de quatro milhões de votos, no mesmo ano em que o pai chegou ao Planalto. O sobrenome garantiu ao deputado estadual, investigado por suspeitas de peculato, chegar ao Senado na onda bolsonarista que marcou as eleições daquele ano.

Antes de tomar posse no Senado, Flávio ocupava o noticiário policial. O Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) apontou uma movimentação milionária na conta de Fabrício Queiroz, então chefe de gabinete de Flávio na Alerj, incompatível com seu salário. A conduta, que o Estadão revelou, ficou conhecida como “rachadinha”.

O Ministério Público do Rio de Janeiro (MPRJ) chegou a denunciar Flávio Bolsonaro por organização criminosa, peculato e lavagem de dinheiro. O caso, no entanto, foi encerrado sem julgamento de mérito. O Superior Tribunal de Justiça (STJ) anulou decisões que permitiram a quebra de sigilo e o Supremo Tribunal Federal (STF) anulou os relatórios do Coaf que embasavam a investigação. O MPRJ informou que o caso foi encerrado depois que o ministro Gilmar Mendes, do STF, rejeitou, em fevereiro de 2025, um recurso pela reabertura. Flávio sempre negou irregularidades e chamou as acusações de perseguição política.

Dark Horse

A Polícia Federal (PF) investiga o financiamento do filme Dark Horse, sobre Jair Bolsonaro. Flávio negociou com o banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master, um contrato de cerca de R$ 134 milhões, e quase R$ 70 milhões foram repassados antes de o banco ser liquidado, em novembro de 2025. Flávio nega qualquer ilegalidade e diz que se tratou de patrocínio privado a um filme privado. Esse inquérito foi aberto em julho no STF, sob relatoria de André Mendonça.

Em 18 de outubro, a uma semana do segundo turno, veio a segunda investigação. O Estadão revelou que a PF enviou ao STF um inquérito sobre suspeita de lavagem de dinheiro envolvendo o advogado Willer Tomaz. O relator sorteado foi Alexandre de Moraes. A PF diz ter encontrado no material de Tomaz um registro de vínculo de Flávio com uma conta bancária de empresa do advogado, em que ele aparecia como “usuário master”. Flávio e Tomaz negam negócios em comum.

Entendimento do STF

O atual entendimento do STF sobre o foro por prerrogativa de função estabelece que a competência dos tribunais superiores se mantém mesmo após a autoridade deixar o cargo, desde que os crimes investigados tenham sido praticados durante o exercício da função pública e em razão dela.

Segunda derrota enfraquece clã familiar

por: Bianca Gomes, Pedro Augusto Figueiredo (Agência Estado)*

 A segunda derrota seguida do sobrenome Bolsonaro na eleição presidencial enfraquece a força política da família, mas não o movimento bolsonarista, que colecionou vitórias nas disputas legislativas em todo o país.

Na avaliação de especialistas, o revés sofrido por Flávio abre espaço para outros nomes disputarem a liderança política do grupo, ainda que a bênção do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) continue sendo fundamental em uma transição que o histórico do grupo aponta que será tensa e conturbada.

O cientista político Rodrigo Prando, do Mackenzie, afirma que o bolsonarismo já não depende de uma vitória presidencial para sobreviver, pois criou uma identidade política que se enraizou em parte significativa da sociedade brasileira, principalmente em setores evangélicos, ligados à segurança pública e ao agronegócio.

Ele projeta uma disputa entre a ala ideológica, representada pelos filhos e influenciadores nas redes sociais, e a ala mais pragmática do movimento, em que estão governadores e parlamentares mais próximos do Centrão.

A tendência, diz Prando, é que o primeiro grupo radicalize o discurso antissistema e leia a derrota como fruto de injustiça e perseguição contra o bolsonarismo. Já os pragmáticos, segundo ele, provavelmente creditarão o insucesso à falta de apelo ao eleitorado centrista, passando a defender um candidato com menos rejeição para 2030.

“O desfecho dessa disputa interna vai definir o perfil da direita nos próximos anos. A minha aposta é que, no plano eleitoral, a ala pragmática ganharia mais força, porque é quem tem mandato e a máquina pública nas mãos. Mas essa base radicalizada continua sendo indispensável e nenhum candidato poderia romper com ela, sob pena de virar alvo dos radicais”, analisou ele.

Sob essa ótica, ganham força o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos-SP), que tem a simpatia da Faria Lima e dos partidos que formam o Centrão, e a ex-primeira-dama e agora senadora da República eleita, Michelle Bolsonaro (PL-DF). Ela se consolidou nos últimos anos como uma figura popular entre o eleitorado evangélico e feminino. Outro nome citado constantemente é o do deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG), político brasileiro com maior votação para a Câmara e com grande alcance nas redes sociais.

A margem pela qual Flávio foi derrotado também o coloca em condições de reivindicar uma segunda chance em 2030. O senador, contudo, ficará sem mandato a partir de fevereiro do ano que vem e seguirá na mira de duas investigações da Polícia Federal — pelos milhões transferidos por Daniel Vorcaro ao filme Dark Horse e pelos vínculos com o advogado Willer Tomaz, suspeito de um esquema de lavagem de dinheiro.

Eduardo Bolsonaro (PL) disse, no início da semana, ser favorável que Flávio deixasse o país em caso de derrota, sugerindo que o irmão poderia ser alvo de perseguição sob o governo Lula. O próprio Eduardo era visto na família como potencial presidenciável, mas as chances dele disputar a próxima eleição são remotas: autoexilado nos Estados Unidos, ele será preso se retornar ao Brasil, pois foi condenado por coação no curso do processo. Ele articulou sanções do governo Donald Trump contra ministros do STF para tentar evitar a prisão do pai.

A vitória de Lula reduz as condições políticas para que o STF anule a condenação de Bolsonaro. Com o ex-presidente preso e Eduardo e Flávio com problemas na Justiça, as outras opções possíveis para manter a família como protagonista seriam o senador eleito Carlos Bolsonaro (PL-SC) ou um acordo em torno de Michelle — Jair Renan (PL) terá 32 anos no próximo pleito, abaixo da idade mínima exigida de 35 anos.

Uma eventual transição tem tudo para ser conturbada. De João Doria a Wilson Witzel, passando por Joice Hasselmann e Alexandre Frota, o bolsonarismo historicamente defenestrou aliados que tentaram conquistar algum grau de autonomia ou discordaram publicamente dos filhos do ex-presidente.

Curiosamente, os três nomes apontados como possíveis candidatos em 2030 já entraram em algum momento na mira de Eduardo, Carlos e Flávio. O primeiro fez uma série de críticas a Tarcísio por não apoiar o tarifaço dos Estados Unidos e cobrou o deputado federal Nikolas, que é rompido com Carlos, por supostamente não apoiar suficientemente a candidatura de Flávio.

Também houve a briga pública entre Flávio e Michelle após divergências sobre as alianças do clã no Ceará. Ainda que carregue o sobrenome do marido, ela é vista pelos filhos do ex-presidente como alguém que não pertence à família. Influenciadores próximos de Eduardo, por exemplo, costumam utilizar o sobrenome de solteira da ex-primeira-dama ao se referir a ela como Michelle Firmo.

Para o cientista político Sergio Simoni Jr., do Departamento de Ciência Política da USP, a estrutura do bolsonarismo, fortemente ancorada nas redes sociais, possibilitou a formação de diversas lideranças que poderiam assumir o legado após a derrota de Flávio.

Ele destaca Nikolas, que não terá mais o empecilho da idade mínima para disputar a Presidência em 2030, e Tarcísio, que, embora seja menos carismático, tem o apoio de setores econômicos, o que tem um peso especial na visão do especialista pelo fato de a direita ser mais popular nas classes média e alta.

Por outro lado, Simoni Jr. pondera que a votação do filho mais velho do ex-presidente foi uma demonstração de força do clã diante da descrença inicial dos analistas de que Flávio seria um candidato competitivo e a série de percalços da campanha, como as trocas de marqueteiros e a briga com Michelle.

“A nomeação da família Bolsonaro ainda é um aspecto muito importante. Quem o Jair nomeie, e tenha o sobrenome Bolsonaro, terá um capital muito importante, ainda que haja uma legião de lideranças fora da família que podem se cacifar no médio prazo”, disse ele.

O economista Maurício Moura, fundador do Instituto Ideia, concorda com a ideia de que duas derrotas seguidas nas urnas abrem espaço para que outros nomes da direita disputem os holofotes. Para ele, o fator mais importante será mais o desempenho do governo Lula nos próximos quatros anos e menos a escolha do nome que disputará a próxima eleição contra a esquerda.

“O que tenho visto no mundo é que a sobrevivência ou o fortalecimento de um campo político derrotado depende muito da performance de quem vai para o governo. Se tivermos um governo mal avaliado, desaprovado, independentemente dos nomes, vai ser um campo forte. Veja a eleição americana. Quem imaginaria que os democratas seriam competitivos no Senado no Texas?”, questionou.

Ele alerta que os potenciais sucessores precisam se movimentar desde já. “Uma lição que aprendi no Brasil é que governadores que pensam em projeto presidencial precisam se fazer conhecidos durante os quatro anos de governo. Não adianta chegar no ano da eleição para se fazer conhecido. A gente viu nestas eleições que isso não funciona”, concluiu.

*Matéria publicada originalmente na edição impressa do dia 27 de outubro de 2026.