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O exército do amor

publicado: 27/10/2026 09h15, última modificação: 27/10/2026 09h15
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Janones e o presidente: reconhecimento ao trabalho do “general” | Foto: Paulo Pinto/Agência Brasil

por André Cananéa*

“Acordado até agora aqui”, seguido por um “pqp”. Essas mensagens, que parecem coisa de grupo de amigos do futebol, foram enviadas pelo deputado federal André Janones (Rede-MG) na manhã de ontem no canal “Exército do Lula”, no WhatsApp. Na verdade, às 6h04 da manhã. O “general” de uma mobilização impressionante virou a noite após o resultado histórico da quarta vitória de Lula (PT) nas urnas, no domingo (25).

Como um curioso em “novas” mídias (novas?) e tecnologia da comunicação, acompanhei de perto esse fenômeno que foi a mobilização de Janones no 2º turno e que, segundo ele mesmo informou em uma live de 24 horas de duração na véspera da eleição, já lhe rendeu convites em sete países para falar sobre essa experiência.

Lula deve muito a Janones pelo “tetra”. Pelo empenho do parlamentar neste 2º turno que, usando inteligência, comunicação e expressões afirmativas, delegando “missões” aos seus subordinados, levou o povo brasileiro não apenas a digitar “13” na urna, mas a entender o que se passa no Brasil de 2026.

Com 42 anos de idade, o deputado mostrou que entende de algoritmo, de engajamento, de como enfrentar a tendenciosa Meta (dona do Facebook e Instagram) utilizando a própria lógica dela, e de comportamento nas redes sociais, que, está mais do que provado, é capaz de mudar o mundo, como mudou os rumos de uma eleição dada como perdida antes da entrada em campo do general.

O PT demorou muito para acordar para as redes sociais. O engajamento visto agora poderia ter definido a eleição já no 1º turno. Se você observar bem o comportamento das redes, sabe que a extrema direita tem tido essa postura de engajamento através de figuras como o deputado Nikolas Ferreira (PL-MG) e o criador de conteúdo Pablo Marçal já há um bom tempo.

Não é exagero dizer que todo mundo tem um celular conectado à internet hoje em dia. De acordo com a pesquisa anual da Fundação Getúlio Vargas sobre o Mercado Brasileiro de TI, divulgada em junho, o Brasil tem 502 milhões de dispositivos digitais (computador, notebook, tablet e smartphone), dos quais 272 milhões são celulares inteligentes com possibilidade de conexão à internet. Isso dá uma média de mais de um smartphone por habitante (1,3, para ser exato).

Ignorar essa população conectada é um tiro no pé, o que torna a atuação de Janones ainda mais importante para a vitória não só de Lula, mas da democracia brasileira. Falando “olho no olho”, através de vídeos pessoais, enviando mensagens a 10.838.026 eleitores (número do canal “Exército do Lula” na manhã seguinte à eleição do 2º turno) de maneira informal, amigável, como se fosse no grupo da família, conquistou o eleitor.

Essa é a grande diferença entre Janones e Nikolas Ferreira, por exemplo. Antagonistas no tabuleiro do xadrez eleitoral — ambos deputados federais reeleitos por Minas Gerais, com forte atuação nas redes sociais e papel de conselheiros digitais das respectivas campanhas —, diferem quanto ao número de seguidores no Instagram, rede que acompanho de perto: o deputado de esquerda terminou a eleição com 8,2 milhões de seguidores, enquanto o parlamentar de direita soma 26 milhões.

E o que David fez, ao contrário de Golias: enquanto Nikolas Ferreira cuspia uma série de preconceitos e inverdades contra o povo nordestino em um vídeo postado há uma semana, André Janones enviava vídeos e áudios no grupo levando o grupo a refletir em meio a orientações de atuação. O que eu acho: que até os seguidores do deputado da direita começaram a repensar toda essa balela do grupo de Nikolas e até a se indignar com isso.

E a população se indignou. Em seu discurso, na noite de domingo, Lula agradeceu ao povo brasileiro, em especial ao engajamento de jovens e de idosos (explodiram vídeos nas redes sociais de filhos e netos auxiliando pais e avós com mobilidade reduzida a depositar votos na urna). O resultado foi uma diferença de quase cinco milhões de votos pró-Lula no fechamento das urnas — 4.430.191, para ser mais exato.

Janones usou como arma o amor, enquanto o adversário pregava o ódio. Isso está imbuído no sentimento do PT neste segundo turno. No sábado (24), véspera da eleição, me vi às lágrimas quando o perfil do Partido dos Trabalhadores embalou cenas da manifestação de uma Avenida Paulista completamente vermelha ao som de “Under Pressure”, música que une Queen e David Bowie.

Afinal, sim, estávamos “sob pressão” e cantando com Freddie Mercury e Bowie versos como “Por que não podemos dar ao amor mais uma chance?”, “E o amor desafia você a mudar nosso modo de nos preocupar com nós mesmos” e “Esta é nossa última dança”. Queria dar um abraço a quem teve a brilhante sacada de usar essa música na postagem, quem entendeu a importância dessa letra nesse momento crucial do país. Afinal, esse hino sintetiza bem a vitória de Lula e da manutenção da democracia brasileira.

*Matéria publicada originalmente na edição impressa do dia 27 de outubro de 2026.