Em 2026 o cantor e compositor Djavan foi um dos destaques do 33º Prêmio da Música Brasileira, sendo premiado como Melhor Artista e Melhor Lançamento de MPB, com o álbum Improviso.
Nesse ano também o artista está em uma turnê celebrativa dos 50 anos de carreira. Desde o ano passado o musical Djavan: vidas pra contar tem circulado pelo país apresentando um pouco da biografia e das canções do artista.
No último sábado tive a oportunidade de ver o que considero o primeiro show deste artista cujas canções são parte da vida de tanta gente. Além do talento, me animou bastante testemunhar ao longo do tempo sua coerência na defesa da democracia brasileira, e recentemente também se fazendo presente em atos públicos num tempo conturbado da política nacional.
Até estar presente ao show de sábado, duas oportunidades para ver Djavan me marcaram bastante. A primeira foi em maio de 1995, quando conheci um garoto durante o VII Encontro de Ciências Sociais. Ele era estudante de Antropologia e participava também da IV Reunião de Antropologia.
Nesse período conheci mais de perto o trabalho de uma antropóloga que admiro muito, a pesquisadora e docente Simone Maldonado. Foi um dos primeiros momentos também que surgia para mim o debate acadêmico sobre os Estudos de Gênero nas Ciências Sociais.
Nessa semana o Djavan iria fazer um show, e o garoto da Antropologia, me paquerando, fez o convite para irmos ver cantor, queria me presentear com uma entrada. A marmota é que lá em casa a gente foi educado para não podia aceitar nada de ninguém, a exceção era só um copo d’água, e no meio da rua. E minha mãe ainda falava: dever, nem favor! Eu já era grandinha, mas estava internalizado.
Agradeci ao convite com a desculpa de que precisava do tempo para estudar. Quando na verdade eu não tive coragem de aceitar o presente. E me sentia mais em paz comigo mesma pagando minhas próprias contas.
Até ali o Djavan que eu conhecia era a trilha sonora da minha adolescência inteira, marcada por “Pétala”, “Faltando um pedaço”, “Lambada de serpente” e “Oceano”, que sempre me lembra da vez que vi o mar pela primeira vez.
Anos depois, sendo mãe de um garoto de dois anos, soube que o cantor iria se apresentar no Festival de Inverno da Garanhuns. Acendeu uma chama em meu coração quando soube que de Campina Grande sairia uma excursão para a apresentação. O clássico bate e volta.
Estava empolgada, consegui comprar duas vagas no ônibus, pedi ajuda da sogra para ficar com a criança até voltar de Garanhuns. Eu já era a mulher que amava “Rota do indivíduo (Ferrugem)” por ter traduzido lindamente meu rito de passagem de casa para o mundo, e tudo que representava seguir “só”, com as próprias pernas e sonhos.
A alegria durou até eu e o Carlos chegarmos no ônibus e constatarmos que a viagem se faria em condições precárias. Chegando em Garanhuns, o cansaço, a chuva e o frio impediram de fato de ver e aproveitar o show.
Em resumo: na volta, depois que o ônibus quebrou e foi empurrado pelos passageiros até voltar a funcionar, me bateu um misto de irritação e neurose que me fez descer do ônibus ao passar por Caruaru. Procurei um hotel e passei a noite sem dormir, porque na esquina um bar tocava bem alto: “Oh, meu amado, por que brigamos? A nossa vida deve ser de alegria...”.
O que nos restou da viagem foi uma sopa no Mc Dantas – assim mesmo -, e um passeio rápido na Feira de Caruaru no dia seguinte, até retornar para casa em outro ônibus. E foram anos e anos sem a possibilidade de ver o Djavan, até sábado passado.
Em Olinda, fui cantar junto com o poeta, celebrando a delícia de se viver numa Democracia. Eu, já uma cinquentona, encantada com o Djavan do tempo presente, que dançava lindamente. Cheio de ginga, sensualidade e poesia, um músico do soul, do jazz... conjugando o verbo “djavanear”.
*Coluna publicada originalmente na edição impressa do dia 06 de novembro de 2026.