Notícias

vacinação

Caderneta em braille é lançada em Patos e CG

publicado: 23/10/2026 08h57, última modificação: 23/10/2026 08h57
Política pública vem sendo implantada no estado desde setembro passado
2026.10.22 Caderneta de vacinação em braille é apresentada em Campina Grande - Hanna Pachu © Julio Cezar Peres1.jpg

Hanna Pachu, da Imprensa Braille A União, apresenta a caderneta para as equipes de Saúde | Foto: Julio Cezar Peres

por Emerson da Cunha* e Mirvan Lúcio*

Na Paraíba, há 2.863 pessoas com deficiência visual, segundo dados da Fundação Centro Integrado de Apoio à Pessoa com Deficiência (Funad). Esse quantitativo inclui tanto pessoas cegas quanto as que possuem baixa visão. Uma política pública de inclusão e acessibilidade vem sendo implantada no estado, com a distribuição de cadernetas de vacinação produzidas em braille. A iniciativa é uma parceria da Secretaria Estadual de Saúde (SES-PB) com a Empresa Paraibana de Comunicação (EPC), por meio da Imprensa Braille A União.

O Núcleo Estadual de Imunização (NEI) e a Atenção Primária à Saúde fizeram, na manhã de ontem (22), em Campina Grande e em Patos, o lançamento das cadernetas de imunização para os municípios que compõem a 2ª e a 3ª Macrorregião de Saúde da Paraíba, polarizadas por essas duas cidades. Os eventos reuniram representantes das equipes de apoio técnico das gerências regionais, que participaram de uma oficina ministrada por Márcia Fernandes, chefe do NEI; Hanna Pachu, gerente operacional da Imprensa Braille A União; e Gildlucia Vieira, da Atenção Primária à Saúde (APS).

Idealizada pela EPC em 2021, a iniciativa foi posta em prática de acordo com as exigências da SES-PB, parceira na elaboração da cartilha. Em 2023, o projeto piloto foi testado em Cabedelo. Em setembro deste ano, a proposta passou a ser implantada nas demais regiões, começando pela 1a Macrorregião, polarizada por João Pessoa. “A gente vê isso como um avanço, pois é a garantia de acesso à informação de saúde para as pessoas com deficiência visual. Nosso estado é o primeiro no país a aderir a esse modelo de caderneta, pensado e desenvolvido aqui”, disse Márcia.

Foram produzidos três modelos de caderneta, contemplando os esquemas vacinais de crianças, de adolescentes e de adultos e idosos — que também inclui as vacinas para gestantes. Além do braille, o documento também é grafado em tinta, para que as pessoas videntes possam lê-lo. “No cartão de vacinação, nós temos as tabelas com todas as vacinas padrão, por faixa etária, e um espaço para vacinas extras. Tudo identificado em braille e tinta, com letras grandes. Além disso, temos uma cartilha informativa do que é cada vacina e para que ela serve”, explicou Hanna.

Capacitação

Os servidores da Saúde que participaram da oficina em Patos serão responsáveis por repassar a formação às equipes de imunização e atenção básica dos municípios. A SES-PB estabeleceu um prazo até o dia 13 de novembro para que todas as cidades da 2a e da 3a Macrorregião viabilizem a capacitação dos profissionais a respeito do preenchimento das informações vacinais e dispensação das cadernetas.

Cada município deverá fazer um levantamento do quantitativo de pessoas cegas ou com baixa visão. Os novos modelos serão disponibilizados apenas para quem já tem a alfabetização em braille. Ao contrário dos vacinadores e técnicos, que não precisarão de uma formação específica para atualizar os dados no cartão. “As cadernetas serão preenchidas à tinta, como os cartões normais. Não haverá dificuldade para aderir ao modelo”, garantiu Márcia.

Anexo ao documento vacinal, foi disponibilizada uma cartela de adesivos sinalizadores, em alto-relevo, para que o deficiente visual possa identificar as vacinas que já foram administradas. O vacinador fará a sinalização da dose na hora do preenchimento dos dados, colocando o adesivo no campo indicado.

Para José Francisco de Souza, gerente da 6a Gerência Regional de Saúde, em Patos, a iniciativa é um momento histórico de inclusão do Sistema Único de Saúde. “O SUS tem, como um dos seus pilares, a sua universalidade. Todos os brasileiros têm de ter acesso aos serviços e à informação, pois é por meio da informação que a gente sabe o compromisso que o sistema tem em relação à gente”, afirmou.

Progressão

Entre as pessoas presentes em Campina Grande, estava Gislaynne Silva, apoiadora institucional da APS de Cuité. Além do trabalho, ela convive com a cegueira em casa, pois o seu marido é cego, devido às complicações da síndrome de Marfan — mal que também acomete a mãe e o irmão dele. “Uma das causas é a luxação do cristalino, que leva à instabilidade e à perda progressiva da visão. Quando eu o conheci, ele tinha em torno de 15% a 20% da visão; hoje, está com apenas 2%. Antes, ele era baixa visão, mas agora é uma pessoa legalmente cega”, contou ela.

Ele é professor de História e, por dar aula o dia inteiro, nunca teve a oportunidade de aprender braille em Campina Grande, a cidade mais próxima com essa oferta. “Nem o irmão nem a mãe dele — ela, já pela idade — têm interesse em aprender. Mas o meu marido tem”. Ela acredita que a caderneta de vacinação em braille pode ajudar a fomentar a vontade de aprender o código. “A tendência [à cegueira] é progressiva. A chegada de um material específico para ele, que é uma pessoa cega, vai instigá-lo ainda mais”, reforçou Gislaynne Silva.

*Matéria publicada originalmente na edição impressa do dia 23 de outubro de 2026.