Os dois primeiros computadores quânticos da América Latina chegaram, ontem (05), ao Porto de Suape, em Pernambuco, e devem estar em João Pessoa dentro de dois dias. A montagem será feita por técnicos chineses e pesquisadores brasileiros treinados na China, em um projeto que coloca a Paraíba e o Brasil na linha de frente do desenvolvimento dessa tecnologia na América Latina.
O projeto, que é desenvolvido pelo Governo da Paraíba, por meio da Secretaria de Estado da Ciência, Tecnologia, Inovação e Ensino Superior (Secties-PB), em parceria com o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), prevê a transferência de tecnologia e a formação de pesquisadores brasileiros. Com a chegada dos equipamentos, a Paraíba passa a integrar um grupo restrito de lugares que dominam uma tecnologia capaz de resolver problemas muito complexos para os computadores convencionais. 
As máquinas vieram da China por navio, em um contêiner comum. Até seguirem viagem para João Pessoa, a carga permanece no terminal da empresa Movecta, em Suape, sob controle aduaneiro. Na capital paraibana, os computadores serão instalados no Centro Internacional de Computação e Tecnologias Quânticas (Ciquanta). São duas máquinas, de 20 e 100 qubits, unidade que mede a capacidade de processamento desses computadores, fornecidas pela empresa chinesa CETC-IQC.
Segundo Cláudio Furtado, titular da Secties-PB, atualmente, cerca de 10 países dominam essa tecnologia, com cerca de 200 computadores quânticos estáveis em operação no mundo. “É fundamental para o Brasil, por uma questão de soberania e de formação de recursos humanos”, afirmou o secretário, que acompanhou o recebimento da carga, em Suape.
No porto, a operação exigiu cuidados diferentes dos habituais, já que a carga, além do seu valor tecnológico, também é a mais valiosa já transportada em um único contêiner, no Brasil — é avaliada em cerca de R$ 80 milhões (cerca de 100 milhões de iuanes, moeda chinesa). “A gente costuma trazer cargas de grandes dimensões e pesos. Esse aqui é o contrário: é um contêiner convencional, mas com um valor e uma carga excepcionais”, disse Tiago Macário, chefe da unidade Suape da Movecta.
Para transportar o contêiner do navio até o terminal, a empresa utilizou uma carreta com sistema de amortecimento diferenciado, equipado com bolsas que reduzem os impactos das irregularidades do piso sobre a carga. Também foram firmados acordos com um grupo de seguradoras e mobilizadas equipes no porto e no terminal.
Chineses e paraibanos
Em João Pessoa, os equipamentos serão instalados no prédio da Estação das Artes, que passou por adaptações para receber as máquinas. O espaço conta com blindagem eletromagnética e foi preparado para atender às exigências de peso e energia dos computadores. Ao todo, cerca de 20 profissionais chineses vão se revezar nos trabalhos.
A montagem começa pela estrutura física dos equipamentos e pelo sistema de resfriamento. Em seguida, serão instalados os componentes lógicos, com a implantação do sistema operacional, e realizados os trabalhos de engenharia de software. O contrato também prevê a transferência dos protocolos de operação para os pesquisadores brasileiros.
Os pesquisadores do Ciquanta chega a essa etapa com formação e experiência prática adquiridas na China. A estabilização das máquinas deve começar em dezembro, com previsão de funcionamento estável a partir de janeiro.
Entenda como funciona um computador quântico
Enquanto os computadores convencionais processam informações por meio de bits, que assumem os valores 0 ou 1, os computadores quânticos utilizam qubits, que podem combinar esses dois estados, simultaneamente. É como uma moeda girando no ar, antes de cair: ela não mostra apenas cara ou coroa, mas uma combinação de possibilidades, característica que permite trabalhar com determinados problemas que exigiriam um esforço muito maior das máquinas tradicionais, especialmente em situações nas quais os computadores convencionais só conseguem chegar a soluções aproximadas.
No Ciquanta, os dois equipamentos terão funções complementares. O computador de 100 qubits será voltado a cálculos e processamentos mais complexos, enquanto o de 20 qubits será utilizado em treinamentos e experimentações, permitindo testar novos chips e desenvolver aplicações antes de avançar para projetos maiores.
As aplicações alcançam diferentes áreas. Na saúde, a tecnologia pode contribuir para a simulação de moléculas, o desenvolvimento de fármacos e o planejamento de novos medicamentos. Na logística, poderá ajudar a trabalhar com problemas complexos de otimização. Também há possibilidades de uso em estudos climáticos, segurança e defesa, proteção de dados estratégicos, energia e inteligência artificial, entre outras áreas que lidam com grandes volumes de informação.
Como acessar
Pesquisadores interessados em utilizar os equipamentos poderão submeter projetos e solicitar horas de processamento. Para isso, devem a página do Ciquanta (ciquanta.secties.pb.gov.br), que já está com o processo aberto.
A expectativa também é atrair startups que desenvolvam soluções relacionadas à computação quântica. As empresas interessadas deverão se instalar no Parque Tecnológico Horizontes de Inovação, em João Pessoa, contribuindo para a formação de um ambiente de pesquisa, desenvolvimento e negócios em torno da nova tecnologia.
*Matéria publicada originalmente na edição impressa do dia 06 de novembro de 2026.