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Morre Jomard Muniz de Britto aos 89 anos

publicado: 13/10/2026 09h52, última modificação: 13/10/2026 09h52
Poeta, filósofo, cineasta e professor, o recifense marcou gerações de artistas
Jomard-Muniz-de-Britto--- Foto da Cinemateca pernambucana - reprodução.jpg

O professor Jomard convivia com Alzheimer há alguns anos | Foto: Reprodução/Cinemateca Pernambucana

por Redação*

A cultura nordestina perdeu, na madrugada de ontem (12), um de seus personagens mais marcantes. Inquieto por natureza, o poeta, filósofo, cineasta e professor Jomard Muniz de Britto morreu aos 89 anos, no Recife, por volta das 3h30, após ser levado a um hospital da capital pernambucana. A causa da morte, entretanto, ainda não foi informada. Segundo o amigo e professor Paulo Cunha, Jomard convivia há alguns anos com Alzheimer e, apesar da boa saúde física, apresentava um quadro progressivo de perda de memória. O sepultamento ocorreu ontem, às 16h, no Cemitério de Santo Amaro, no Centro do Recife.

Inquietude

Um dos precursores do tropicalismo em Pernambuco, Jomard também integrou a equipe do educador Paulo Freire, contribuindo para a elaboração de seu método de alfabetização de adultos. No cinema, fez mais de 40 filmes em Super-8, formato de película bastante utilizado em produções experimentais, com obras como O Palhaço Degolado e Recinfernália na bagagem. Mas ele não se contentava apenas com as próprias criações.

Professor por vocação, parecia trazer no DNA o desejo de compartilhar conhecimento e provocar ideias. Com sua eloquência e entusiasmo, fazia questão de despertar essa mesma inquietação em quem cruzava seu caminho. “Ele colocava todo mundo para fazer as coisas. Dizia: ‘Faça seu filme, escreva seu livro, faça sua peça’. Todas as coisas importantes que aconteceram na cultura pernambucana, a partir dos anos de 1960, tiveram, de alguma forma, o apoio e a participação dele”, resume o amigo Paulo Cunha.

Não por acaso, ele também deixou sua marca em solo paraibano, onde lecionou no curso de Comunicação Social da Universidade Federal da Paraíba (UFPB) e fez escola para além da sala de aula, construindo laços importantes com a produção cultural do estado. Sua chegada à Paraíba ocorreu após a perseguição que sofreu durante a Ditadura Militar, quando foi preso e afastado da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). “Ele foi denunciado por pessoas que trabalhavam com ele e, inclusive, o admiravam muito”, detalha.

Sorridente até o fim

Mas nem mesmo essas adversidades conseguiram apagar seu entusiasmo. “Ele nunca deixou de ser alegre”, lembra Paulo. E essa alegria, segundo o amigo, permaneceu intacta mesmo com o avanço do Alzheimer. Embora estivesse cada vez mais recolhido em casa, sob os cuidados dos sobrinhos e profissionais de saúde, Jomard continuava recebendo visitas de amigos e admiradores, que faziam questão de estar por perto. Paulo guarda com carinho a lembrança de um encontro, há cerca de um ano e meio, durante um debate sobre contracultura e cinema experimental na Fundação Joaquim Nabuco, na capital pernambucana. Apesar das limitações impostas pela doença, Jomard parecia se reconectar com aquele universo que tanto amava. “Ele ficou o tempo todo na plateia, sorrindo, achando graça”, recorda o professor.

Paulo Cunha conheceu Jomard quando tinha apenas 16 anos e encontrou nele muito mais do que uma referência intelectual. O que mais lhe chamava a atenção era a maneira como tratava todos — de igual para igual —, sem fazer questão de exaltar as próprias conquistas. Aliás, mesmo com tanta história para contar, Jomard não gostava muito de revisitar o passado. Preferia conversar sobre os projetos que ainda estavam por vir. “Ele nunca foi um saudosista, ele sempre olhava pra frente”, lembra o amigo. E era assim, também, nas salas de aula, onde, palavras de Paulo, “Ensinava com uma criatividade e um entusiasmo difíceis de encontrar”.

Legado

E, para alguém que sempre preferiu olhar para o futuro, sua obra ainda tem muito a mostrar. Por intermédio de Paulo, os curtas-metragens de Jomard estão sendo digitalizados pelo projeto Cinelimite, iniciativa que busca preservar sua produção cinematográfica e torná-la acessível às novas gerações. Para o professor, embora a partida do amigo deixe uma ausência difícil de preencher, sua contribuição para a cultura brasileira não tem fim. “Ele deixou tantas marcas, tantos afetos em tantas pessoas, que sua presença vai perdurar”, afirma. E completa: “Ele vai continuar por aí, agitando como sempre fez”.

Jomard nasceu em 8 de abril de 1937, no bairro de São José, no Recife, e deixa como legado não apenas seus filmes e livros, mas também a ousadia de quem nunca se cansou de experimentar e questionar.

*Matéria publicada originalmente na edição impressa do dia 13 de outubro de 2026.