“Isso é perfeito. Chegou no momento em que estou com quase 80 anos. Eu queria ser homenageada pela casa que faz novos doutores. Quando me disseram, esperaram a minha reação, e eu falei: ‘Sim. Isso é maravilhoso, porque é na minha terra’. Estou muito sensibilizada, é motivo de agradecer a Deus. Acima de tudo, isso aconteceu porque Ele quis”.
Essa foi a reação da cantora, compositora, multi-instrumentista e escritora paraibana Catarina Maria de França Carneiro, conhecida artisticamente como “Cátia de França”, ao receber, ontem, o título de Doutora Honoris Causa pela Universidade Federal da Paraíba (UFPB) — a mais alta distinção honorífica concedida por uma universidade a pessoas eminentes. A condecoração foi acompanhada por uma plateia que lotou a Sala Radegundis Feitosa, no Campus I da instituição de ensino.
A sessão de concessão do título foi encabeçada pela reitora Terezinha Domiciano, responsável pelo gesto de pôr o capelo azul sobre a cabeça de Cátia, oficializando o ato simbolicamente — a cor azul representa os conhecimentos da área das Ciências Humanas. “Existem duas formas de alguém ser doutor: por meio dos estudos, desenvolvendo uma pesquisa ou um grande projeto de extensão e inovação, ou desta forma, que é bem diferente, pois se origina de um trabalho desenvolvido fora da universidade. Por causa da sua obra, a gente pode conceder esse título a uma personalidade”, explicou a reitora.
Além da concessão do título, a noite contou com apresentações em homenagem à Cátia, feitas por artistas como Nathália Bellar, Val Donato e a Pequena Orquestra Popular. A celebração fez parte do calendário da IV Mostra de Arte e Cultura da UFPB.
Densa
O pedido de outorga do título foi feito pela pró-reitora de Extensão, Bernardina Freire, e pelo coordenador de Extensão Cultural na Pró-Reitoria de Extensão (Proex), Alexandre Santos, em agosto passado, ao Conselho Universitário (Consuni), que o acatou por unanimidade. “Cátia de França é um ícone da Paraíba. Conceder esse título é, antes de tudo, dizer que a universidade tem a educação como pilar de formação e reconhecer, em Cátia de França, uma mulher que faz do seu território a sua cultura, a sua inspiração, a sua identidade”, disse Bernardina.
Alexandre, por sua vez, ressaltou a trajetória da cantora na música brasileira numa época em que a indústria fonográfica era muito centrada nos artistas homens. “Cátia quebrou barreiras, abriu espaço para muitas mulheres que vieram depois dela e continua sendo inspiração”, ressaltou. O coordenador também lembrou que o título é o reconhecimento de uma obra densa, baseada, por exemplo, na literatura de Manoel de Barros e de José Lins do Rêgo, entre tantos outros escritores e escritoras que ela já musicou. “É uma musicalidade que precisa ser cada vez mais difundida, pesquisada, estudada. Acredito que a universidade contribui para que a obra de Cátia ocupe mais espaços da academia”, acrescentou.
Últimos cinco anos
Aos 79 anos de idade e com mais de meio século de carreira, Cátia continua sendo agraciada por sua obra e trajetória. Em 2021, ela fez a reedição em vinil do álbum 20 palavras ao redor do Sol, lançado originalmente em 1979, e reforçou o lugar desse disco na sua história, ao mesmo tempo que o trouxe para o conhecimento de um público mais jovem.
Em 2024, foi a vez de lançar um álbum novo, cheio de músicas inéditas, chamado No rastro de Catarina, em alusão ao nome que tem na sua certidão de nascimento. Com ele, chegou a ser indicada ao Grammy Latino 2024, na categoria de Melhor Álbum de Rock ou de Música Alternativa em Língua Portuguesa.
No mesmo ano, recebeu o título de Mestre das Artes da Paraíba e teve a sua obra reconhecida como Patrimônio Imaterial do estado. No ano passado, recebeu o prêmio Artista do Ano, no 8o Prêmio Profissionais do Ano — que teve, entre seus finalistas, nomes como Liniker e Milton Nascimento.
*Matéria publicada originalmente na edição impressa do dia 06 de novembro de 2026.