Para o eleitor, a participação nas eleições termina com o apertar da tecla verde, confirmando a sua escolha. Mas, para os mesários, a história começa muito antes e só termina depois que o último voto é registrado. Ontem, na Paraíba, enquanto milhões de brasileiros voltaram às urnas para escolher o presidente da República, 42.726 pessoas, segundo dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), foram convocadas para garantir o funcionamento das seções eleitorais em todo o estado. Distribuídos em 68 zonas eleitorais, esses trabalhadores tiveram a responsabilidade de orientar os eleitores, organizar as filas e conduzir o processo de votação.
Entre os convocados, está Marileide dos Santos Silva, que conhece essa responsabilidade desde muito jovem. Quando foi chamada pela primeira vez, tinha apenas 16 anos e ainda nem havia manuseado uma cédula de votação. “Senti insegurança. Nunca havia votado, mas já comecei com toda essa responsabilidade”, recorda. Apesar do receio inicial, ela continuou desempenhando esse importante papel, ao longo dos anos, com uma pequena pausa somente durante a gravidez. Hoje, aos 52 anos, atuou nos dois turnos das eleições, no município de Sobrado, onde trabalha e vota. Segundo ela, ao longo dessas quase quatro décadas como mesária, a mudança mais marcante foi a passagem do papel para as urnas eletrônicas. “São realidades bem diferentes”, avalia.
Desde então, o trabalho ficou mais tranquilo, embora ela reconheça que a quantidade de cargos em disputa no primeiro turno tenha dificultado a votação. No segundo, por sua vez, “foi mais simples”. No entanto, mesmo depois de tanto tempo nessa função, a experiência continua sendo gratificante. Além de rever pessoas e usufruir das folgas — um dos benefícios garantidos aos mesários —, ela faz outro destaque: “É importante contribuir para a democracia. Gosto de participar e me sinto ativa, como parte do processo mais democrático do nosso país”, afirma.
Outro lado
Já Jankly Loanes Brito Soares, de 34 anos, conheceu esse outro lado das eleições mais recentemente. Servidor público, voluntariou-se em 2024, motivado pela curiosidade de desvendar os bastidores desse processo, e voltou a atuar como mesário agora, em 2026, como primeiro-secretário da seção 45, na Escola Municipal Anita Trigueiro do Valle, no Altiplano, em João Pessoa. Ele faz parte dos 32% de voluntários registrados no estado, além de integrar um dos grupos etários com maior presença entre os convocados na Paraíba — o de 30 a 44 anos, de acordo com o TSE. “Eu quis conhecer como funciona o processo eleitoral mais de perto, além de dar a minha contribuição para que as eleições aconteçam”, explica.
E o que ele encontrou, antes e durante as votações, foi uma rotina bem diferente daquela vivenciada como eleitor. Na função de secretário, Jankly organiza as filas, confere se os eleitores estão com os documentos necessários e os auxilia em caso de dificuldade. Segundo ele, o trabalho exige atenção, principalmente para equilibrar o atendimento preferencial com o fluxo dos demais eleitores. Por isso, destaca a importância da capacitação que recebeu para compreender as responsabilidades de cada integrante da mesa. “É bem diferente você estar por dentro da organização. Inclusive, recomendo que mais pessoas se candidatem, porque é uma oportunidade bastante interessante para ver como tudo funciona e reconhecer a importância das eleições no processo democrático”, analisa.
Se lidar com o público demanda empatia, o trabalho em equipe torna a rotina mais agradável, na avaliação dele. Por ter atuado com os mesmos colegas das eleições de 2024, Jankly considera que esse entrosamento fez a diferença ontem. “Nas duas eleições, trabalhei com as mesmas pessoas — e a nossa relação de trabalho deu muito certo”, completa.
Treinamento
De fato, o preparo dos mesários é fundamental para que a votação transcorra de forma organizada. Como reforça Anderson Kleiner, chefe da Seção de Sistemas e Orientação de Cadastro do Tribunal Regional Eleitoral da Paraíba (TRE-PB), eles precisam estar prontos para orientar os eleitores e lidar com as intercorrências que possam surgir no momento de votar. Segundo ele, a quantidade de cargos em disputa no primeiro turno exigiu uma atenção especial das equipes, devido à longa sequência de votação, mas o segundo pleito foi mais simples e rápido.
Segundo ele, são os mesários que devem garantir os procedimentos, “desde o início até o fim dos trabalhos”. Para se ter ideia, o treinamento abrange diferentes situações, como atendimento prioritário, assistência a pessoas com deficiência e procedimentos diante de imprevistos. “O mesário é treinado para que o eleitor, inclusive aquele com deficiência ou dificuldade para o exercício do voto, não seja, de nenhuma forma, impedido de votar”, resume.
Além da experiência que Jankly e Marileide classificam como marcante, a função garante dois dias de folga para cada dia trabalhado nas eleições e para cada dia de treinamento, auxílio-alimentação de R$ 65, por turno, direito a meia-entrada em eventos culturais, esportivos e de lazer na Paraíba e aproveitamento das horas como atividade extracurricular em universidades conveniadas e como critério de desempate em concursos públicos. Jankly, por exemplo, já usufruiu das seis folgas referentes às eleições de 2024 e pretende utilizar as deste ano em breve. Esses benefícios, aliás, também pesaram na decisão dele de se voluntariar.
Mas, para os dois mesários, o que eles experimentaram nas eleições deste ano vai além das vantagens oferecidas pela Justiça Eleitoral. “É bom ver que as pessoas estão exercendo a sua cidadania”, resume Jankly.
Ação dos organizadores dos prédios eleitorais começa cedo
Para alguns pais que foram à Escola Municipal Henrique Guilhermino Barbosa, em Campina Grande, durante as eleições, a presença de Ana Paula dos Santos parecia a oportunidade certa para perguntar sobre o boletim dos filhos. Mas o que eles não sabiam é que a gestora estava na unidade por outro motivo: atuar como administradora do prédio. “Acabaram esquecendo que, naquele momento, eu estava a serviço da Justiça Eleitoral”, recorda. Ontem, ela voltou a exercer essa função, ajudando a garantir a organização do local de votação mais uma vez.
Iniciada neste ano, a experiência começou depois de Ana Paula manifestar interesse em participar do processo eleitoral, mas a convocação só aconteceu há poucos dias do primeiro turno. Depois de passar por um treinamento presencial, ela assumiu uma rotina que começa antes mesmo da chegada dos mesários. Entre as suas responsabilidades, estão: verificar as condições do prédio, conferir a presença das equipes, acompanhar a preparação das salas e orientar os eleitores.
Além disso, o expediente não termina às 17h, pois ainda é preciso acompanhar a saída das urnas e a entrega das chaves à vigilância. “Precisamos conferir, em uma lista, se todos chegaram, se faltou alguém e se está tudo organizado para o início da votação. Nós também acompanhamos a preparação das salas, organizamos os materiais, recebemos os eleitores na porta, orientamos sobre as sessões e ajudamos na organização das filas”, detalha.
Para ela, que sempre gostou de lidar com o público, participar das eleições foi uma experiência gratificante. “Apesar do cansaço, ficou para mim a sensação muito boa de dever cumprido e de contribuição para a democracia”, finaliza.
*Matéria publicada originalmente na edição impressa do dia 26 de outubro de 2026.
